Do motu proprio "Doctoris Angelici" de São Pio X:

"Nenhum Concílio celebrado posteriormente à santa morte deste Doutor, deixou de utilizar sua doutrina. A experiência de tantos séculos põe de manifesto a verdade do que afirmava Nosso Predecessor João XXII: «(Santo Tomás) deu mais luz à Igreja que todos os demais Doutores: com seus livros um homem aproveita mais em um ano, que com a doutrina dos outros em toda sua vida» "(Alocução no Consistório, 1318.)

DA "LECTURA SUPER MATTHAEUM" DE SANTO DE TOMÁS DE AQUINO:

Comentando sobre a Grande Aflição que haverá no mundo durante o período em que a "Abominação da Desolação" estiver ocupando o Lugar Santo, escreve o Angélico:

"Em seguida, haverá uma grande tribulação, porque o ensino cristão será pervertido por um falso ensino. E se esses dias não tivessem sido abreviados, ou seja, através do ensino da doutrina, da verdadeira doutrina, ninguém poderia ser salvo, o que significa que todos seriam convertidos à falsa doutrina."
[Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Evangelho de São Mateus - Cap.24,22 - notas de Pierre d'Andria (1256-1259),(630 pags.) Tradução ao francês por Professor Jacques Ménard e Madame Dominique Pillet (2005).]

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

LIVRO DIGITAL SOBRE O DOM DE LÍNGUAS



Neste dia 03 de setembro - Festa de São Gregório Magno - o site Veritatis Splendor dispõe ao público uma importante obra sobre o extraordinário Dom de Línguas.

Acesse e peça o seu exemplar : descubra toda a verdade sobre este tema de difícil compreensão para a grande maioria dos católicos, inclusive para os próprios membros da RCC.


Acesse: www.veritatis.com.br/ebooks/domlinguas.pdf

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"Caricaturas" do Estado de Graça

Assim como temos várias caricaturas da verdadeira Igreja de Cristo, hoje em dia temos várias “caricaturas” da verdadeira condição para salvação de nossa alma. O Concílio de Trento (totalmente válido e infalível até hoje) definiu como condição indispensável para a salvação da alma, o crente estar em estado de graça. Muitos católicos perderam o valor ou não aprenderam o que realmente se dá com aquele que está em estado de graça: é aquele que tem a vida divina, que participa da natureza divina, habitado pela Santíssima Trindade, que é templo do Espírito Santo.

O demônio, muito astuto, quer que não percebamos o valor do estado de graça e de sua conservação para a vida da alma, por isso coloca nos corações dos homens outras doutrinas diferentes e destruidoras, que tem por objetivo fazer as pessoas perderem a noção da conservação da vida da graça para a salvação da alma.

A maior luta do demônio é para que percamos a noção do que é o estado de graça, bem como de sua necessidade. Pois aquele que perde esta noção fica mais vulnerável à sua ação tentadora, deixa de velar para que este estado seja conservado, deixa de evitar o pecado, pois pensa que Deus perdoa seus pecados apenas pelo fato de pedirmos isto a Ele em nossas súplicas. É claro, que se Ele assim o quisesse poderia nos perdoar desta forma, e de maneira extraordinária (fora do normal) pode até o fazer em alguns casos onde a pessoa esteja de boa fé. Mas se fosse esta a Sua vontade, não haveria necessidade de Jesus instituir o sacramento da Confissão, que é a forma ordinária (via normal) que Ele instituiu para este fim.
Aquele que perde o sentido do estado de graça perde também o verdadeiro valor do sacramento da Confissão, que foi instituído por Cristo justamente para perdoar os pecados mortais cometidos após o batismo e com isto restaurar o perdido estado de graça. Pois, estar em estado de graça é estar isento de pecado mortal. Sendo assim o demônio inventa nos corações dos homens “caricaturas” ou “distorções” do estado de graça para nos enganar e fazer que sejamos condenados ao inferno.

Podemos dizer que esta é a grande luta deste nosso tempo: lutar contra a “falsificação” do estado de graça.

O mesmo podemos dizer da “oração em línguas”, que é em certo sentido uma “caricatura” ridícula e muito bem falsificada daquilo que São Paulo escreve na sua Carta aos Coríntios, onde ele explica o que é realmente o dom de línguas.
Este tipo de caricatura, derivada daquela principal que destrói o estado de graça, colabora para que a principal seja promovida. Mas de que maneira?
Suponhamos o exemplo de uma seita que destituída da sucessão Apostólica, e com isso dos Santos Sacramentos, bem como da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério. Com estas premissas já concluímos que ela já não possa existir. Mas considerando o que acontece na prática: a seita existe. Como fica destituída dos sacramentos, e com isso de sinais sensíveis que comunicam a graça invisível (insensível), necessita então de criar algo de sensível para “caricaturar” os sacramentos, e assim oferecer em suas reuniões heréticas.
Apela então para o emocionalismo e sentimentalismo. Substituindo o estado de graça, que é algo de sobrenatural e por isso não experimentado (CIC 2005) pelos sentidos do homem, por algo natural como o emocionalismo, a seita introduz na consciência do crente que este sentiu a Deus, e se baseia neste sentimento para deduzir que Deus habita em sua alma (Sendo que na verdade não podemos sentir nossa própria alma). Concluindo então que na referida seita a presença de Deus na alma é baseada através dos sentimentos, deduzimos que a oração em línguas deve ser também algo de sensível para reforçar aquilo que concluem sobre a mesma presença de Deus. A oração em línguas então serve para confirmar aquela “presença sentimental” de Deus em suas almas. Daí dizerem que “oram em espírito”, ou seja, se estão orando em espírito, deduzem que é sinal de que o Espírito Santo está habitando neles. Sendo que na verdade qualquer pessoa, até mesmo um ateu, se exercitado para “orar em línguas” da maneira deles o conseguiria facilmente. Aquilo que chamam de “dom de línguas” não é nada mais que um som produzido pela vibração contínua das cordas vocais onde estas tremem e produzem o som. Não é um dom, é apenas aptidão, basta que a pessoa seja treinada para fazer este som que ela o produzirá sem menores dificuldades.

Uma verdadeira “perda de tempo”, onde as pessoas, muitas vezes sem conhecimento e sem ajuda de ninguém, são enganadas e levadas a pensar que agindo através de um puro sentimentalismo, poderão receber os mesmos méritos que receberiam se orassem pedindo a Deus as graças necessárias à sua salvação. Mas é também verdade que Deus conhece a intenção do coração destas pessoas, e de acordo com aquilo que Ele vê nestes corações: pureza ou maldade - pode conceder até mais méritos do que para aqueles que oram corretamente, mas possuem “corações de pedra”.
De qualquer forma, a verdade é que perdem tempo e deixam de pedir aquilo que serviria para a salvação da alma, ou seja, a graça santificante. Este é um meio que o demônio se utiliza para desviar os corações do verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo confiado à sua Igreja.

Voltando ao assunto principal, independentemente da intenção das pessoas, essa “caricatura” do “dom das línguas” faz com que seja promovida a falsificação do estado de graça e consequentemente de toda a doutrina da Igreja Católica.

Que aqueles que são responsáveis pela difusão da verdade dentro da nossa Santa Igreja Católica possam perceber a importância do ensino correto das verdades da nossa fé.

Peçamos a Virgem Imaculada, Maria Santíssima, que nos livre a todos e ao nosso povo deste ensinamento de todo contrário à verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Viva o Papa Bento XVI !!!

terça-feira, 17 de junho de 2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Para onde vai nossa sociedade civil?

Temos hoje uma verdadeira “salada” de seitas atuando livremente na sociedade, e com pleno direito dado pelo Estado. Dado este direito fica claro que o Estado relativiza a religião. Fatalidade nefasta!
O que sobrará da sociedade?
A sociedade civil pode dar reconhecimento à prática de qualquer religião publicamente? Ou, seria somente por tolerância.
O papa Leão XIII nos responde:


CARTA ENCÍCLICA

SAPIENTIAE CHRISTIANAE

DO SUMO PONTÍFICE
LEÃO XIII
SOBRE
OS DEVERES FUNDAMENTAIS
DOS CIDADÃOS CRISTÃOS


1. Restaurar os princípios da sabedoria cristã e conformar plenamente com eles a vida, os costumes e as instituições dos povos, é uma necessidade que cada dia se torna mais evidente. Da desestima deles derivou tão caudalosa enchente de males, que nenhum homem de são juízo pode tolerar o estado presente sem ansioso cuidado, nem alargar os olhos sem receio do futuro.
2. Tem-se feito, é verdade, não medíocre progresso nas comodidades corporais e extrínsecas; mas toda essa natureza sensível, a abundância de meios, as forças e as riquezas, se podem gerar comodidades e aumentar a serenidade da vida, não poderão nunca satisfazer a nossa alma, criada para coisas mais altas e com mais gloriosos destinos. Olhar a Deus e encaminhar-se para ele, tal é a lei suprema da vida do homem, o qual, criado como foi à sua imagem e semelhança, é impulsionado com toda a força de sua mesma natureza a gozar do seu Criador. Todavia, esse caminhar para Deus não é obra de movimentos ou esforços corporais, mas atos próprios da alma, que são: conhecimento e amor. Deus é a primeira e suprema verdade, e da verdade não vive senão a inteligência. Deus é a santidade perfeita e o sumo bem, e a este só a vontade pode aspirar e chegar eficazmente por meio da virtude.

Fim último da sociedade

3. Ora, o que se diz dos indivíduos, também se aplica à sociedade doméstica e à civil. Efetivamente, se a própria natureza instituiu a sociedade, não foi para que o homem a seguisse como a seu último fim, mas para que nela e por ela achasse meios eficazes que o auxiliassem no aperfeiçoamento de si mesmo. Logo, se houver sociedade que não procure senão as vantagens externas, vida cômoda e delicada, se tiver por praxe pôr a Deus de lado na administração da coisa pública e descurar as leis morais, desvia-se perfidamente do seu fim e das prescrições da natureza e, mais que sociedade e comunidade de homens, é uma imitação enganosa e um vão simulacro da verdadeira sociedade.
4. Ora, esses bens da alma, que acima dissemos, os quais não se encontram senão na verdadeira religião e na prática perseverante dos preceitos cristãos, vemos que se escurecem cada vez mais entre os homens ou de esquecidos, ou de enfastiados, e parece em certo modo que, quanto mais adianta o progresso no tocante ao corpo, maior se torna a decadência dos bens da alma. E não são pequena prova da diminuição e enfraquecimento da fé cristã as injúrias que com tanta freqüência, à luz do dia e aos olhos do mundo inteiros, se estão fazendo à religião, injúrias que numa época zelosa da religião de forma alguma teria tolerado.
5. Por isso mal se pode calcular quão grande multidão de homens se encontra em risco de perdição eterna; e não só os homens, mas também as mesmas sociedades e Estados não poderão conservar-se largo tempo incólumes, porque com a ruína das instituições e dos costumes cristãos, arruinados ficam sem remédio os mais sólidos fundamentos da sociedade humana. Resta só a força material para manter a ordem e tranqüilidade pública; mas essa força bem fraca é, quando não se apóia na religião, tornando-se mais apta a criar escravidão do que obediência; traz em si mesma os germes de grandes perturbações. Assaz catástrofes nos apresentou já o século em que vamos, e quem sabe as que estão ainda por vir!

Magistério da Igreja

6. Por conseguinte o mesmo tempo em que vivemos, incita-nos a procurar o remédio onde ele se encontra, isto é, a restabelecer, na vida particular e em todas as partes do organismo social, os princípios e práticas do cristianismo, que é o único meio capaz de exterminar os males que nos vexam e de prevenir os perigos que nos ameaçam. A isso, veneráveis irmãos, devemos atender, nisso com todo o empenho e esforço trabalhar. Por essa razão, embora nós tenhamos já tratado essas matérias em outras circunstâncias, segundo se nos oferecia ensejo, parece-nos todavia útil expor com mais desenvolvimento nesta carta os deveres dos católicos; deveres, cujo cumprimento exato contribuirá admiravelmente para se salvar a sociedade. Vivemos numa quadra de luta desesperada e quase cotidiana sobre matérias de máximo interesse, na qual de maravilha se não deixarão alguma vez embair uns, desencaminhar outros e esmorecer muitos. E daí, veneráveis irmãos, o nosso dever de advertir, ensinar e exortar a todos os fiéis, como requerem os tempos “para que ninguém abandone o caminho da verdade”.
7. Está fora de toda a dúvida que na prática da vida mais e mais graves obrigações acorrem aos católicos do que aos homens pouco penetrados da nossa fé ou totalmente desprovidos dela. Quando Jesus Cristo, consumada a redenção do gênero humano, mandou os apóstolos que fossem pregar o Evangelho a toda a criatura, impôs logo a todos os homens a obrigação de escutar e crer o que lhes fosse ensinado, obrigação à qual vinculou indispensavelmente a salvação eterna: “o que crer e for batizado, será salvo; o que, porém, não crer será condenado” (Mc 16,16). Mas, uma vez que o homem abraçou, como devia, a fé cristã, fica por esse fato sujeito à Igreja, como seu filho, e torna-se membro da mais vasta e mais santa sociedade, a qual o Pontífice Romano governa com missão expressa e autoridade suprema, debaixo de sua cabeça invisível, que é nosso Senhor Jesus Cristo.
8. Ora, se a lei natural nos manda amar com predileção extremosa e defender a terra em que nascemos e os criamos, de modo que todo o bom cidadão esteja pronto a arrostar até a morte pela sua pátria, com muito maior razão devem os cristãos animar-se de iguais sentimentos a respeito da Igreja, que é a cidade santa do Deus vivo, obra imediata de Deus e por ele mesmo organizada, a qual anda, sim, peregrinando nesta terra, mas é a que chama os homens e os instrui e encaminha à eterna bem-aventurança. Amemos, pois, e muito a nossa pátria terrena que nos deu a vida mortal: mas amemos ainda mais a Igreja à qual somos devedores da vida imortal da alma, porque é justo preferir aos bens da alma aos do corpo, e os deveres para com Deus têm um caráter mais sagrado que os deveres para com os homens.

9. De resto, se bem ponderarmos, o amor sobrenatural da Igreja, e o amor da pátria são dois afetos que procedem do mesmo princípio eterno, de ambos é o mesmo Deus autor e causa, e por isso nunca poderá um ir de encontro ao outro. Sim, nós podemos e devemos por um lado amar-nos a nós mesmos, querer o bem ao próximo, amar a coisa pública e a autoridade que a governa, e por outro lado e ao mesmo tempo venerar a Igreja como a Mãe, e amar a Deus com o maior amor que nos caiba no coração.





segunda-feira, 19 de maio de 2008

Condenação do Papa Leão XIII: Americanismo ou Carismatismo?

Hoje muitos afirmam um novo influxo do Espírito Santo na Igreja.
Denominam esta heresia com o nome de “Batismo no Espírito Santo”.
Incrível é, que nesses dois mil anos, desde a fundação da Igreja Católica, nunca se ouviu falar, dentro da doutrina Católica, em tal “batismo”, seria então a mesma condenação feita por Leão XIII, no ano de 1.889, mas valendo também para os dias de hoje?
Porventura Deus nos daria um Novo Pentecostes?
A resposta é negativa. Mas não é minha, mas do Papa Leão XIII.
Trecho da Carta do
Sumo Pontífice
Papa Leão XIII
Testem benevolentiae
ao cardeal Gibbons
(22.1.1889) ASS 31
Condenação do Americanismo

Do erro em acomodar os dogmas à mentalidade moderna

Dz 1967 (3340)
Este é o fundamento em que geralmente se baseiam as novas doutrinas de que estamos falando: para mais facilmente atrair à Fé católica os dissidentes, deve a Igreja aproximar-se um pouco mais da cultura de um mundo já adulto e, atenuando o antigo rigor, condescender com os gostos e princípios modernamente introduzidos entre os povos. E pensam muitos que isto deve ser entendido não só quanto à norma de vida, mas também no que se refere às doutrinas que expõem o Depósito da Fé. De fato, afirmam que, para atrair a vontade dos dissidentes, seja oportuno omitir certos pontos de doutrina, como se fossem de menor importância, ou mitigá-los de tal modo que não conservem o mesmo sentido que a Igreja constantemente manteve. Mas não é preciso um longo discurso para ver com que propósito condenável foi arquitetada semelhante idéia. Basta recordar a natureza e a origem da doutrina ensinada pela Igreja. A propósito diz o Concílio Vaticano [I]: “E jamais deve [alguém] afastar-se (...)” (Dz 3020)

Dz 1968 (3341)
Mas a história de todo o passado [da Igreja] é testemunha de que esta Sé Apostólica, à qual foi confiado não só o Magistério, mas também o Governo supremo de toda a Igreja, constantemente se manteve “no mesmo dogma, no mesmo sentido, no mesmo modo de entender”; mas quanto à norma de vida, sua atitude foi sempre a de conduzir as coisas de tal modo que, mantendo incólumes os direitos de Deus, jamais desatendesse aos costumes e à psicologia dos tão diferentes povos que ela congrega. E quem duvidará de que também agora poderá fazê-lo, se assim o exigir a salvação das almas? Isto, no entanto, não deve ser resolvido ao arbítrio de pessoas particulares, que geralmente se enganam com a aparência de bem, mas é preciso deixá-lo ao juízo da Igreja (...).

Dz 1970 (3342)
Todo o Magistério externo é desprezado como desnecessário, e até como menos útil, por aqueles que se esforçam em alcançar a perfeição cristã: agora – dizem eles – o Espírito Santo infunde nas almas dos fiéis maiores e mais abundantes carismas que nos tempos passados e os ensina e conduz com um certo misterioso instinto, sem mediação de ninguém (...). Mas se se considerar a fundo a questão, dispensada também qualquer direção externa, não se conseguirá entender, pelo modo de falar desses inovadores, em que consiste esse mais abundante influxo do Espírito Santo que tanto exaltam.


Além do mais, quanto a uma segunda vinda do Espírito Santo o Papa ainda afirma:

10. Posto isso, não é, absolutamente, admissível excogitar-se ou guardar uma segunda, mais ampla e fecunda “aparição ou revelação do Espírito Divino”; a que atualmente se efetua na Igreja é deveras perfeita, e nela permanecerá incessantemente até que a Igreja militante, após o percurso do seu período de lutas, seja transplantada para as alegrias da Igreja triunfante no céu. (Carta Encíclica Divinun Illud Múnus – Sobre a missão do Espírito Santo – Papa Leão XIII)




quarta-feira, 14 de maio de 2008

SOU CATÓLICO?

A INTOLERÂNCIA CATÓLICA


Cardeal Pio

Sermão pregado na Catedral de Chartres (excertos); 1841.

Meus irmãos (...),
Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.
A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito, e não darei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam exercer-se por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias, como outros observaram antes de mim (...).
Deixo porém este campo cheio de dificuldades, e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica, em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade, e é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade, e é cheia de tolerância quanto às pessoas.
Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.
Faz parte da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.
Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda a parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 fazem 4? Se vierdes dizer-me que 2 mais 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 mais 2 fazem 4...
Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.
Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma (...).
Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.
Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o Cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha-se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.
Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.
Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.
Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário, por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.
Nós ficamos muitas vezes confusos com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil. Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!
Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).
A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética, e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o Cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o Catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.
Esta doutrina que qualificais de absurda não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França. — A que ponto de loucura chegamos então? — Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, apartada de toda a doutrina que não é a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.
Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!
Sim, Santa Igreja Católica, Vós tendes a verdade, porque tendes a unidade, e porque sois intolerante; não deixais decompor esta unidade. (negritos meus)
Fonte:
http://www.santotomas.com.br/apologetica/intolerancia.asp