Do motu proprio "Doctoris Angelici" de São Pio X:

"Nenhum Concílio celebrado posteriormente à santa morte deste Doutor, deixou de utilizar sua doutrina. A experiência de tantos séculos põe de manifesto a verdade do que afirmava Nosso Predecessor João XXII: «(Santo Tomás) deu mais luz à Igreja que todos os demais Doutores: com seus livros um homem aproveita mais em um ano, que com a doutrina dos outros em toda sua vida» "(Alocução no Consistório, 1318.)

DA "LECTURA SUPER MATTHAEUM" DE SANTO DE TOMÁS DE AQUINO:

Comentando sobre a Grande Aflição que haverá no mundo durante o período em que a "Abominação da Desolação" estiver ocupando o Lugar Santo, escreve o Angélico:

"Em seguida, haverá uma grande tribulação, porque o ensino cristão será pervertido por um falso ensino. E se esses dias não tivessem sido abreviados, ou seja, através do ensino da doutrina, da verdadeira doutrina, ninguém poderia ser salvo, o que significa que todos seriam convertidos à falsa doutrina."
[Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Evangelho de São Mateus - Cap.24,22 - notas de Pierre d'Andria (1256-1259),(630 pags.) Tradução ao francês por Professor Jacques Ménard e Madame Dominique Pillet (2005).]

segunda-feira, 12 de março de 2012

Comentário de Santo Tomás de Aquino - Sobre o Anticristo



Comentário de Santo Tomás de Aquino à Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses

– Capítulo II –

O Advento da Segunda Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Anticristo

Título do original latino:

Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici su per Secundam Epístolam Sancti Pauli Apostoli ad Thessalonicenses expositio


Fonte: www.clerus.org

Traduzido por Rodrigo Santana


Nota: O presente texto que apresentamos aos nossos leitores é parte de um belíssimo e extraordinário comentário da Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicensses feito pelo mais Doutor dos Santos e o mais Santo dos Doutores da Igreja, isto é, de Santo Tomás de Aquino.
A tradução para a língua portuguesa foi feita por Rodrigo Santana através de um texto editado em castelhano pela Editorial Tradicón , S. A., Av. Sur 22 No. 14 (entre Oriente 259 y Canal de San Juan), Col Agrícola Oriental. México - Codigo Postal 08500) de 1977. A edição em castelhano (disponível no site da Congregação para o Clero: http://www.clerus.org) se deu através de um exemplar em latim intitulado Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici su per Secundam Epístolam Sancti Pauli Apostoli ad Thessalonicenses expositio editado por Petri Marietti em 1896.
O texto bíblico citado por Santo Tomás é o da Vulgata de São Jerônimo, infelizmente as atuais traduções em português não são tão fiéis aos termos empregados nesta referência católica das Escrituras, desta forma optamos por traduzir da Vulgata os textos utilizados neste comentário, dando assim maior uniformidade e fidelidade ao texto latino de Santo Tomás.

O que nos motiva a publicar o presente trecho do comentário de Santo Tomás (sobre o capítulo 2 de 2 Tess) é que ele trata de um tema  ainda muito incompreendido entre nós católicos deste século: o Anticristo. Neste trecho de seu comentário o Doutor Angélico apresenta-nos a doutrina tradicional da Santa Igreja Católica a respeito deste tema que é de especial interesse em nosso tempo. É mister lembrar ainda que os Pontífices Romanos não só recomendaram-nos à doutrina do Aquinate (Santo Tomás), mas também em diversas oportunidades confirmaram a autoridade de seus ensinamentos para toda a Igreja Católia (alguns exemplos: Aeterni Patris de Leão XIII, Doctoris Angelici de S. Pio X , Código de Direito Canônico de 1917, Studiorum Ducem de Pio XI, além de outros.)


Lição 1: 2 Tessalonicensses 2,1-5


Admoestamo-los a não apartar-se da verdade, como se o dia do juízo estivesse próximo, porque primeiro há de dar-se a conhecer o Anticristo, que São Paulo chama o homem do pecado.


1 Entretanto, irmãos, vos suplicamos, pelo advento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de nossa união à Ele.

2 que não abandoneis rapidamente vossos sentimentos, nem os assusteis com supostas revelações, com certos discurso, ou com cartas que se suponham enviadas por nós, como se o dia do Senhor estivesse muito próximo.

3 Não deixai-vos seduzir por nada e de nenhum modo, porque não virá este dia sem que primeiro haja acontecido a apostasia geral dos fiéis, e aparecido o homem do pecado, o filho da perdição,

4 o qual se oporá à Deus e se levantará contra tudo o que se diz Deus, ou se adora, até chegar a por seu assento no templo de Deus, dando-se a entender que é Deus.

5 Não vos recordais que, quando estava entre vós, vos dizia estas coisas?


No capítulo anterior o Apóstolo correu o véu aos acontecimentos futuros no que mostra as penas dos maus e o prêmio dos bons; aqui anuncia os perigos que correrá a Igreja no tempo do Anticristo; e primeiro anuncia a verdade desses perigos futuros, e exórta-os logo a permanecer na verdade. Quanto ao primeiro, excluída a falsidade, os instrui na verdade. Traz-lhes também a consideração à (tripla) razão que servirá para persuadí-los, e a que: "a não deixar-se alterar tão facilmente"; e toma do meio que pudera abordá-los. Induze-os, não com mandatos (Fil 1) senão com seus próprios rogos: "os suplicamos".  Pelo advento de Cristo, embora terrível para os maus (Am 5), desejável para os bons (2Tm 4; Ap 22); Pelo desejo e amor de toda a congregação dos Santos, "nele mesmo", e à saber, onde está Cristo, porque "onde está o corpo, ali se juntarão as águias" (Mt 24). Ou nele mesmo, porque todos os Santos, em lugar e glória, estarão no mesmo, segundo o mesmo: "junta-lhe seus santos". Mas a que os induz? "a que não mudeis de ligeiro vossos sentimentos". Mas uma coisa é mover-se e outra ser presa do terror. Move-se de seu sentir quem deixa o que teve; como se dissera: não deixes tão rapidamente minha doutrina. “Quem pronto crê é cabeça leviana” (Eclo. 19). Mas o terror é um gênero de trepidação, como o medo do contrário. Por isso disse: "nem os aterrorizeis", como o ímpio, em cujos ouvidos "soa sempre um estrondo que lhe aterra" (Jó 15,21). Também se houver paz, é suspeita sempre ciladas e traições, "pois sendo como é medrosa a maldade, traz consigo o testemunho de sua própria condenação" (Sab 17,10).


-a)"com supostas revelações". Dá de mão ao que poderia movê-los, em especial e no geral: "que nada os seduza"; e é um seduzido ou enganado por uma falsa revelação; donde diz: "com supostas revelações" ou pelo espirito, isto é: se alguns disserem que o Espírito Santo revelou-lhe algo de encontro a minha doutrina, "não os aterrorizeis" (1Jo 4; Ez. 13). Algumas vezes também Satanás transfigura-se em anjo de luz, como se diz em 2Co 11 e 3 Reis,22: "sairei e serei um espirito mentiroso na boca de todos seus profetas"; b) por um raciocínio ou falsa exposição da Escritura; por isso diz: "com certos discursos" (2Tm 2; Ef 5); c) por uma autoridade distorcida a um perverso sentido. "Segundo que também nosso caríssimo irmão Paulo os escreveu conforme à sabedoria que lhe foi dada, como o faz em todas suas cartas... nas quais há algumas coisas difíceis de entender, cujo sentido os indoutos e inconstantes pervertem, da mesma maneira que nas demais escrituras de que abusam, para sua propria perdição" (2 Pedro,3,16). Mas sobre o que versava o engano?: "como se o dia do Senhor estivesse já muito próximo". E adiciona: "ou com cartas que se supunham enviadas por nós"; porque na Primera Carta, se mal se entende, parece dizer que a vinda do Senhor está já à porta, como aquilo: "logo nós os que vivemos... "


Diz o mesmo no geral: "que nada os engane de nenhum modo" (Lc 21; 1Co 15). A razão pela qual o Apóstolo tira do meio estas “pedras de tropeço”, é porque o prelado por nenhum motivo há de querer que valendo-se de mentiras se consigam alguns bens.

"A mais disso, somos convencidos de testemunhos falsos" (1Co 15,15). Assim mesmo porque a coisa crida era perigosa: que se aproximava a chegada do Senhor. Primeiro, porque se daria ocasião a maior engano, já que haveriam alguns, depois de mortos os Apóstolos, que diriam serem eles o Cristo (Lc 21). Por isso o Apóstolo não quis que houvesse lugar a dúvidas. Também porque o demônio pretende com frequência fazer-se passar por Cristo, como consta na Vida de São Martinho; e não quis que os Tessalonicenses passasem pelo mesmo. Santo Agostinho põe outra razão: porque correria perigo a fé; pois algum diria: tardará em vir o Senhor, e então me prepararei para recebê-lo. Outro: logo virá, agora vou-me preparar. Outro, enfim: não sei; e este está mais no justo, porque concorda com o que diz Cristo.

Mas o que vai mais errado é o que diz: logo, porque, passado o fim da pregação, os homens entrariam em desespero e creriam que fosse falso o que estava escrito.

Estabelece logo a verdade, ao dizer: "porque não virá este dia sem que primeiro haja acontecido a apostasia"; e mostra primeiro o que acontecerá à vinda Anticristo, que são duas coisas: uma anterior à sua vinda; outra, a sua mesma vinda. Primeiro está a apostasia, que a Glosa explica de muitas maneiras, e primeiro da fé, que, segundo estava anunciado (Mt 24), todo o mundo a receberia. Esta é, pois o sinal precursor, que -segundo Santo Agostinho- ainda não se cumpre; depois dela haverá muitos apóstatas (1Tm 4) "e pela inundação dos vícios se resfriará a caridade de muitos" (Mt 24,12).

Ou entenda-se a apostasia ou separação do Império Romano, ao que todo o mundo estava submetido. Segundo Santo Agostinho, figura sua era a estátua de Daniel, em cujo capítulo dois se nomeiam quatro reinos, os quais terminariam no acontecimento da vinda de Cristo; e que isto era um sinal a propósito, porque a firmeza e estabilidade do Império Romano estava ordenada a que, debaixo de sua sombra e senhorio se ensinasse por todo o mundo a fé cristã. Mas como pode ser isto, sendo já passados muitos séculos desde que os Gentios se apartaram do Império Romano e, isso não obstante, não havia vindo ainda o Anticristo? Digamos que o Império Romano ainda segue em pé, mas mudada sua condição de temporal em espiritual, como disse o Papa São Leão em um sermão sobre os Apóstolos. Por conseguinte, a separação do Império Romano há de entender-se, não só na ordem temporal, senão também na espiritual, e, a saber, da fé católica da Igreja Romana. E isto é um sinal muito a propósito, porque, assim como Cristo veio quando o Império Romano senhoreava sobre todas as nações, assim pelo contrário o sinal do Anticristo é a separação dele ou apostasia.

Prediz em segundo lugar ao Anticristo, quanto a sua culpa e pena, que toca implícitamente e em comum, e seguidamente explica, e quanto ao seu poder. Disse pois: primeiro virá a apostasia e então se deixará ver. E chama-se "o homem do pecado, o filho da perdição", segundo a Glosa, porque assim como em Cristo abundou a plenitude da virtude, assim também no Anticristo a multidão de todos os pecados; e assim como Cristo é melhor que todos os santos, assim o Anticristo pior que todos os maus. Por isto se chama o homem do pecado, porque ele todo, dos pés a cabeça, será um puro pecado. Mas isto não quer dizer que não pudesse ser pior, porque o mal jamais corrompe totalmente o bem, conquanto ao ato não poderá ser pior; contudo melhor que Cristo nenhum homem. Disse-se "o filho da perdição", isto é, destinado à perdição final (Jó 21). O filho da perdição, isto é, do diabo, não por natureza, senão pela malícia acabada, que nele se acumulará. E disse: "se fará manifesto"; porque assim como todos os bens e virtudes dos santos, que precederam à Cristo, foram figura de Cristo; da mesma maneira em todas as perseguições da Igreja os tiranos foram como figura do Anticristo no que ele estava latente; e assim toda aquela malícia, que estava escondida neles, se fará patente a seu tempo.


Ao dizer logo: "no qual se oporá à Deus", explica o que havia dito , e demonstra como é o homem do pecado e como é filho da perdição. Assim mesmo prenuncia sua futura culpa, que descreve e demonstra e indica sua causa, e diz que não anuncia nenhuma doutrina nova. Da também um sinal dessa culpa, que é duplo, a saber, a oposição contra Deus e o preferir-se a Cristo. De onde diz: "que faz oposição" a todos os espíritos bons (Jó 15; Is 3) e "se levantará contra tudo o que se diz Deus". E diz-se Deus de três maneiras: a) por natureza. "Escuta, Israel, o Senhor teu Deus é um só Deus" (Deut. 6); b) na opinião dos povos. "Todos os deuses dos Gentios são demônios" (Sl. 95). c) por participação. "Eu disse: sois deuses " (Sl. 81). E a todos estes prefere-se  o Anticristo, "e se levantará soberbo e insolente contra todos os deuses; e falará com arrogância contra o Deus dos Deuses" (Dan. 11,36).


(nt. do tradutor: quanto à relação a não anunciar nenhuma doutrina nova, Santo Tomás está se referindo ao Apóstolo São Paulo e não ao Anticristo. Como pode se notar no último parágrafo desta parte da tradução *)


Sinal de sua culpa é o que diz: "até chegar a por seu assento no templo de Deus"; pois a soberba do Anticristo avantaja em muito a de todos os que lhe precederam. Porque assim como se lê de Caio César que quis em vida pusessem em todos os templos uma estátua sua e lhe dessem culto; e do rei de Tiro se diz em Ezequiel 28: "eu sou Deus"; assim é crível o faça o Anticristo chamando-se Deus e homem; e na prova disso se sentará no templo. Mas em que templo?


Acaso não foi destruído pelos Romanos? Por isso dizem alguns que o Anticristo é da tribo de Dan, que não se nomeia entre as outras doze (Ap 7); e por isso também os Judeus o receberam primeiro, e reedificaram o templo em Jerusalém, e assim se cumprirá o de Daniel 9,27: "e estará no templo a abominação da desolação" (Mt 24). Mas alguns dizem que nunca será reedificada Jerusalém, nem o templo, senão que durará a desolação até a consumação no fim do mundo. Crença que admitem também alguns Judeus; por isso a explicação que dão de "no templo de Deus" a referem à Igreja, porque muitos eclesiásticos o receberão. Ou, segundo Santo Agostinho, se sentará no templo de Deus, isto é, exercerá seu principado e senhorio, como se fosse ele mesmo com os seus o templo de Deus, como Cristo o é com os seus.


Mostra que nada novo escreve, ao dizer: "não vos recordais que, quando estava todavia entre vós, vos dizia estas coisas?"; como se dissera: já antes, estando convosco, havia vos dito (1Jo 2; 2Co 10).*

Lição 2: 2 Tessalonicensses 2,6-9


Põe-se de manifesto a morte do Anticristo, e declara-se a demora de sua vinda.
6 Vós já sabeis a causa que agora o detém, até que seja manifestado a seu tempo.

7 O fato é que já vai obrando o mistério da iniquidade; entretanto, o que está firme agora mantenha-se até que seja tirado o impedimento

8 E então se deixará ver aquele perverso, a quem o Senhor Jesus matará com o alento de sua boca e destruirá com o resplendor de sua presença

9 aquele iníquo que virá com o poder de Satanás, com toda sorte de milagres, de sinais e falsos prodígios,

10 e com todas as ilusões que podem conduzir à iniquidade àqueles que se perderam, por não haver recebido e amado a verdade a fim de salvarem-se.

Chega o Apóstolo, anunciando o futuro, contou a chegada e culpa do Anticristo; aqui nos mostra a causa que impede essa vinda; e primero descobre que eles já sabem a que causa se refere, e a propõe em termos obscuros. Assim pois: digo que é necessário se dê a conhecer o homem do pecado. "Já sabeis vós a causa que agora o detém", isto é, a causa de que se tarda, porque eu já lhes disse, de sorte que o que ao presente lhe detém, "a seu tempo", isto é, oportunamente, "se dará a conhecer" (Ecle.8).


-"O fato é que já vai obrando ou tomando forma o mistério da iniquidade". Explica por que se demora o Anticristo; e este texto tem muitas interpretações, porque mistério pode estar em nominativo ou acusativo. No primeiro caso o sentido é este: digo que a seu tempo se dará a conhecer, porque ainda o mistério, isto é, - figuradamente ocultado (enigmáticamente proposto), já está obrando nos fingidos (cristãos), que parecem bons, e na realidade são maus, e estão fazendo o ofício do Anticristo, "mostrando, sim, aparência de piedade, mas renunciando ao seu espírito" (2Tm 3,5). No segundo caso, ou no acusativo, se interpreta assim: porque o diabo, em cujo poder permanecerá o Anticristo, já começou ocultamente, por meio dos tiranos e enganadores, a cometer suas iniquidades; porque as perseguições à Igreja deste tempo são figuras dessa última perseguição contra todos os bons e, em comparação com aquela, são como a cópia respectiva da original. "Entretanto o que está firme agora". Isto também tem múltipla explicação. Uma - segundo Santo Agostinho e a Glosa- diz que, na opinião de alguns, o Anticristo é Nero, o primeiro perseguidor dos cristãos, que não foi morto, senão roubado fraudulentamente, e que algum dia será restituído em seu lugar. Donde o Apóstolo, dando por vã esta opinião, diz: "entretanto o que está firme agora", tendo em suas mãos o Império, "mantenha-se, até que seja tirado o impedimento", isto é, até que morra. Mas explicado desta maneira não cai bem, porque há muitos anos que Nero está morto, à saber, o mesmo ano que o Apóstolo. Refere-se melhor a Nero, como pessoa pública do Império Romano, até que seja tirado do meio, isto é, o Império Romano, deste mundo (Is 23,9: foi o Senhor dos Exércitos que o decidiu, para fazer murchar o orgulho de tudo que se honra).

Ou de outro modo: "entretanto o que tem", isto é, detem agora a chegada do Anticristo, detenha-o para que não venha; qual se fosse necessário que alguns venham todavía à fé e alguns se apartem dela, como se dissera: para deixar franquia à porta a ires e vires, entradas e saídas, o que agora detém até que venha detenha até que seja tirado do meio este homem obsceno. Ou também assim: entretanto o que tem agora fé tenha-a, isto é, mantenha-se firme nela (Ap 2). Até que seja tirado do meio, isto é, a reunião revoltosa de maus, se separe dos bons e se ponha aparte, como se fará na perseguição do Anticristo. Ou entretanto... isto é, que o mistério de iniquidade, a iniquidade misteriosa, que detém, detenha, até que a removam de seu esconderijo ao centro da praça, à vista do público; pois muitos pecam agora às ocultas, mas chegará o dia no qual farão à luz do dia; porque Deus suporta os pecadores enquanto às ocultas cometem seus pecados; mas o dia em que encontrarem o limite, então se lhe acabará a paciência, como sucedeu com os Sodomitas. Com tudo isso, Santo Agostinho confessa ignorar o que é o que o Apóstolo lhes diz, se já o sabiam; por isso diz: "já sabéis o que agora detém". Ademais não era coisa muito necessária de saber-se.


Ao dizer logo: "e então se deixará ver", põe-se a chegada do iníquo e sua pena; primero sua manifestação, logo sua pena. Quanto ao primeiro diz: aquele, o único, iníquo, perverso, se deixará ver, porque sua culpa se fará patente, "a quem o Senhor Jesus matará com o alento de sua boca". - "O zelo do Senhor dos exércitos é o que fará estas coisas" (Is 9,7), isto é, o zelo da justiça, que é amor; porque o espírito de Cristo é o amor de Cristo, e este zelo é o que o Espírito Santo tem para com a Igreja. Ou com o alento de sua boca, isto é, por ordem dela; porque São Miguel lhe dará morte no Monte das Oliveiras, de onde Cristo subiu aos céus. De sorte parecida encontrou seu fim Juliano o Apóstata, executado por mão divina. E esta é a pena presente, embora também será castigado com a eterna, porque "o destruirá com o resplendor de sua presença", isto é, com sua chegada que tudo o porá como um sol (1Co 4). E o destruirá, digo, com a eterna condenação (Sl. 27). Diz também resplendor, porque o Anticristo pareceu encher de trevas a Igreja, e as trevas são desterradas pelos resplendores; porque tudo o que o Anticristo dará a conhecer será demonstrado haver sido engano. (Et dicit, illustratione, quia ipse visus est Ecclesiam obtenebrare, et tenebrae expelluntur illustratione, quia quicquid Antichristus ostenderit, ostendetur fuisse mendacium.) trad. mendacium =  mentira, invenção, disfarce.

No latim: (Et haec est poena praesens, licet futura etiam aeternaliter punietur, quia destruet illustratione, etc., id est, in adventu suo omnia illustrante. I Cor. IV, 5: illuminabit abscondita tenebrarum, et cetera. Et destruet, inquam, aeterna, scilicet damnatione. Ps. XXVII, v. 5: destruet illos, et cetera. Et dicit, illustratione, quia ipse visus est Ecclesiam obtenebrare, et tenebrae expelluntur illustratione, quia quicquid Antichristus ostenderit, ostendetur fuisse mendacium. Deinde cum dicit eum cuius est adventus, praedicit potestatem Antichristi. Et circa hoc duo facit, quia primo ponit potestatem eius ad seducendum; secundo huius causam ex domini iustitia, ibi eo quod charitatem. Iterum prima in tres, quia primo ponit actorem huius potestatis; secundo modum seducendi; tertio ostendit seducendos. Actor huius potestatis est Diabolus, et ideo destruet eum Christus)


-"aquele iníquo que virá com o poder de Satanás". Prediz o poder do Anticristo, para seduzir, e a causa deste poder de sedução, a justiça do Senhor, "por não haver recebido e amado a verdade para salvar-se os que pereceram". Põe também ao autor deste poder, o modo de seduzir, os seduzidos ou enganados. O autor deste poder é o diabo; por isso  Cristo o destruirá, que para isso veio, "para desfazer as obras do diabo" (1Jo 3,8). Por isso diz que o Anticristo "virá com o poder de Satanás", isto é, governará por instigação diabólica. "Será solto Satanás de sua prisão, e sairá e enganará as nações" (Ap 20,7). Pois das obras que fará algumas serão segundo a operação de Satanás, como as do endemoninhado ou possuído, em quem não só instiga a vontade senão ainda impede o uso da razão; em cujo caso não se lhe imputa a culpa, porque não usa de seu arbítrio. Mas o Anticristo não será assim, porque usará de seu arbítrio, e dentro dele estará o diabo instigando-lhe, como se disse de Judas (Jo 13,27).

E enganará desta maneira: primeiro valendo-se do poder secular; segundo, da força dos milagres. Quanto ao primeiro diz: "com toda sorte de milagres", a saber, do mundo. "Se fará dono dos tesouros de ouro e de prata e de todas as preciosidades de Egito" (Dan. 11,43). Ou com virtude fingida. Quanto ao segundo diz: "de sinais". Os sinais são uma espécie de "milagretes".* Os prodígios, entretanto são grandes, que demonstram que uma pessoa é um ser prodigioso, como quem diz à distância: distante, em dígitos: do dedo (Ap 13). E diz: "falsos prodígios". Chama-se falso um milagre, ou porque lhe falta a verdadeira razão do fato, ou a verdadeira razão do milagre, ou o devido fim do milagre. O primeiro é o que fazem os ilusionistas, melhor dito, o que se faz por arte de magia e bruxaria, quando o diabo se encarrega de dar “gato por lebre” para que pareça outra coisa do que é; como fez Simão Mago com um carneiro que mandou degolar, que logo se deixou ver vivo; ou com um homem, que todos criam degolado e, por haver-lhe visto logo vivo, creram-lhe ressuscitado. E isto fazem os homens fazendo fantasmas na imaginação para enganar.

*No latim: Prodigia vero magna, quae aliquem prodigiosum ostendunt, quasi procul a digito.(como se medisse a dedo) Ap. XIII, 13: fecit signa magna, ita ut et ignem faceret descendere de caelo, et cetera. Matth. XXIV, 24: dabunt signa magna et prodigia, ita ut in errorem inducantur, si fieri potest, etiam electi.

Procul (latim): à distância , ao longe, de longe

A segunda espécie de milagres, impropriamente chamados assim, são os que despertam grande admiração, por ver-se o efeito, sem conhecer-se sua causa. Assim pois "os milagres", que tem não simplesmente sua causa oculta, senão para algum oculta, dizem-se não simplesmente milagres, senão maravilhas. Mas os que tem simplesmente sua causa oculta são propriamente milagres, cujo autor é o mesmo glorioso Deus, porque estão acima de toda a ordem da natureza criada. Mas algumas vezes se fazem algumas maravilhas, cujas causas estão ocultas, mas não fora da ordem da natureza; e isto com mais razão o fazem os demônios, que conhecem as virtudes da natureza e tem determinada eficácia para especiais efeitos; e estas fará o Anticristo, mas não as que tem verdadeira razão de milagre, porque não tem poder naquilo que está sobre a natureza.

Dizem-se milagres em terceiro lugar os que estão ordenados a servir de testemunho à verdade da fé, ou a subtrair os fiéis a Deus, como se diz em São Marcos. Mas se algum tivesse a graça de fazer milagres, e não se valesse deles para este fim, os milagres seriam verdadeiros quanto à razão do fato e à razão do milagre; mas seriam falsos quanto ao devido fim e à intenção divina.

Mas isto não sucederá com o Anticristo, porque ninguém faz verdadeiros milagres contra a fé, já que Deus não é testemunha de falsidades. Donde um que ensine uma falsa doutrina não pode fazer milagres, embora um homem de má vida bem o poderia.



Logo sinala aos que se deixaram enganar, ao dizer: "àqueles que se perderam", isto é, aos destinados à perdição. "Nenhum deles tem perecido senão o filho da perdição". E isto precisamente porque "minhas ovelhas ouvem minha voz" (Jo 10).

Lição 3: 2 Tessalonicensses 2,10-16


O Anticristo seduzirá aos que não tem caridade; por isso há que pedir à Deus que se digne chamar-nos e não permita que nos apartemos da verdade.

11 Por isso Deus lhes enviará ou permitirá que obre neles o artifício do erro, com que creiam na mentira,

12 para que sejam condenados todos os que não creram na verdade, mas que se comprazeram na maldade

13 Mas nós devemos sempre dar graças à Deus por vós, irmãos amados de Deus, por Deus havê-los escolhido por primícias de salvação, mediante a santificação do espírito e a verdadeira fé que lhes foi dada;

14 na qual os chamou assim mesmo por meio de nosso Evangelho, para fazê-los chegar a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.


15 Que assim, meus irmãos, ficai firmes e mantenham as tradições que haveis recebido, ora por meio da pregação, ora por carta nossa.

16 E Nosso Senhor Jesus Cristo, e Deus, nosso Pai, que nos amou, e deu eterno consolo, e boa esperança pela graça,


17 alente vossos corações e os confirme em toda obra e palavra boa.


Depois de indicar a quem seduzirá o Anticristo, à saber, os destinados à condenação, aqui explica o porque do dito e como serão seduzidos; os fiéis, pelo contrário, como serão livrados. Assim mesmo indica só sua culpa, a pena com a culpa, só a pena. E este é o passo-a-passo com que procede o pecado: que primeiro é um desamparado da graça pelo demérito do primeiro pecado, e cai em outro pecado (porque um abismo chama a outro abismo), e por último na condenação eterna. Disse pois que a causa pela qual serão enganados é o não haver recebido e amado a verdade, isto é, a verdade do Evangelho (Jo 8; Jó 24); e diz: "caridade da verdade", porque, ao não estar informada a fé pela caridade, não tem nenhum valor (1Co 13; Gal. 6). E acrescenta o proveito que trai a verdade dizendo: "a fim de salvar-se" (Rm 5). Mas, por culpa de não haver recebido a verdade, a pena será seu engano; de donde diz: "enviará", isto é, permitirá que obre neles "o artifício do erro" (Is 19; 3 Reis 22). Por isso diz: "com que creiam na mentira", isto é, na falsa doutrina do Anticristo (Rm 1). Mas a pena é a eterna condenação; donde acrescenta: "para que sejam condenados", com sentença de condenação (Jo 5), "todos os que não creram na verdade" (Jo 3).

Ao dizer logo: "mas nós", mostra porque os fiéis de Cristo se verão livres; da graças por eles e relembra a memória dos benefícios divinos, pelos quais se veêm livres desses males. Diz pois assim: eles serão enganados, mas "nós devemos dar graças" (Rm 1). E recorda dois benefícios divinos, à saber, a eleição de Deus, que é eterna, e a vocação, que é temporal. Disse pois: "porque nos elegeu" a nós, os Apóstolos, "e a vós", os fiéis (Ef 1; Jo 15). Toca em três pontos na matéria da eleição, à saber, na ordem dos eleitos, no fim da eleição e no meio de conseguir o fim. Todos os santos tem sido eleitos desde o princípio do mundo (Deut. 33); mas as primícias de modo especial são os Apóstolos (Rm 8). Por isso diz: "primícias da fé". Assim mesmo o fim da eleição é a salvação eterna, como diz: "para a salvação" (1Tm 2). E isto se leva à efeito primeiro, da parte de Deus, por meio da graça santificante; donde diz: "mediante a santificação do espírito"; segundo, da parte nossa, com o consentimento de nossa vontade por meio da fé; por isso acrescenta: "e na verdade da fé ".

-"à qual os chamou". Põe o segundo benefício, que é a vocação temporal de Cristo, que segue-se à eleição (Rm 8). E sobre esta vocação repara na parábola do que fez a grande ceia (Lc 14) "por meio de nosso Evangelho" pregado por mim. Mas a qual ceia nos convida? "para fazer-nos chegar a glória", isto é, para que alcancemos a glória de Cristo.

Logo, quando diz: "assim que, meu irmãos", os admoestam a manterem-se firmes na verdade e interpõe a oração para este fim. E faz o primeiro, porque nuestras obras dependem de nossa vontade, e o segundo, porque é necessário o auxílio da graça.

E primeiro admoesta-os a estarem firmes (Gl 5); ensina logo o modo de está-lo: "e mantenham as tradições", isto é, os ensinamentos que receberam de seus maiores; porque os que se recebem dos menores algumas vezes não tem de ser observados, à saber, quando se opõe aos ensinamentos da fé (Mt 15); mas sim quando dizem respeito aos mandamentos divinos, "que haveis aprendido". "Recomendavam aos fiéis a observância das tradições e decretos acordados pelos Apóstolos e os presbíteros que residiam em Jerusalém" (At 16,4). E estas tradições de duas maneiras lhes deram à conhecer: umas com palavras; donde diz: "ora por meio da pregação"; outras por escritos; por isso acrescenta: "ora por carta nossa". Donde se põe de manifesto que haviam muitas coisas na Igreja não escritas, que os Apóstolos ensinaram e, por conseguinte, hão que se observar; pois muitas coisas - disse Dionísio -, a juízo dos Apóstolos, eram melhor ocultá-las. Por isso disse o Apóstolo: "quanto ao mais já o disporei quando lá chegar" (1Co 10). - "E Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai ...": Pondo esta frase, como se dissesse: estas são minhas recomendações, mas de nada serve sem o auxílio divino. Por isso põe primeiro um duplo benefício de Deus: o amor que nos tem e pelo qual nos concede outras coisas; por isso diz: "nos amou"; e a consolação espiritual: "e deu eterno consolo" (2Co 1; Is 40). E diz consolo eterno, à saber, contra todos os males iminentes e futuros. Por isso estamos na expectação de "uma boa esperança", isto é, desses bens eternos que infalivelmente nos estão prometidos (1Pe. 1). E isto "pela graça", pela qual esperamos conseguir a vida eterna (Rm 6). Pede para eles uma exortação, que é uma admoestação encaminhada a mover o ânimo a que queiram; e esta pode fazê-la o homem exteriormente; mas não seria eficaz, se interiormente não o alentasse o espírito de Deus; donde disse: "alente vossos corações", isto é, o mova. "Eu a levarei à solidão e falar-lhe-ei ao coração" (Os 2). Assim mesmo pede a confirmação; por isso diz: "e os confirme" (Sl. 67); como se dissesse: nos alente com sua graça para que queiramos, e nos confirme para que eficazmente queiramos. E isto "em toda obra e palavra boa". A obra leva a dianteira da palavra, porque Jesús começou primeiro a obrar e depois ensinou.


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quinta-feira, 8 de março de 2012

Encíclica Aeterni Patris - Papa Leão XIII


Encíclica

AETERNI PATRIS


DO SUMO PONTÍFICE
LEÃO XIII
SOBRE A RESTAURAÇÃO
DA FILOSOFIA CRISTÃ
CONFORME A DOUTRINA
DE SANTO TOMÁS DE AQUINO



Veneráveis Irmãos, saúde e Bênção Apostólica.

SUMÁRIO DA ENCÍCLICA

INTRODUÇAO (ns. 1-5)
1 - Natureza e função do Magistério da Igreja.
2 - O Magistério da Igreja atinge também a Filosofia e as Ciências.
3 - Finalidade da Encíclica: Natureza do estudo filosófico que respeite a Fé e as exigências das Ciências Humanas.
4 - A causa dos males modernos é a difusão das más idéias.
5 - A inteligência bem formada é a causa de numerosos benefícios.


I PARTE: RELACIONAMENTO ENTRE A RAZAO E A FÉ (ns. 6-17)
1 - Embora tenha o campo limitado, a Filosofia é o mais poderoso subsídio para a Fé.
2 - Para reconduzir a sociedade à ordem, a tradição patrística sempre recorreu ao uso da razão bem ordenada.
3 - Subsídios da Filosofia para a Fé: Aplaina os caminhos da Fé -Prova a existência de Deus -Fornece os critérios de credibilidade -Ordena a ciência teológica -Aprofunda os conhecimentos da Fé - Defende a Fé.
4 - Subsídios da Fé para a Filosofia: Prevalece a Fé - A Fé não destrói a Filosofia, mas respeita-lhe os princípios, O método e os argumentos - O mal da Filosofia sem a Fé: O racionalismo - Os bens provenientes da harmonia entre Fé e Filosofia.


II PARTE: A HARMONIA ENTRE RAZAO E FÉ VIST A ATRAVÉS DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA (ns. 18-20)
1 - Realizada pelos apologistas.
2 - Realizada pelos Padres da Igreja, Escritores Eclesiásticos e Doutores, máxime por S. Agostinho.
3 - Realizada pelos Escolásticos, máxime por S. Boa ventura e S. Tomás.


III PARTE: SANTO TOMÁS FOI QUEM COM MAIOR PERFEIÇÃO UNIU RAZÃO E FÉ (ns. 21-27)
1 - Excelência e perfeição da doutrina de S. Tomás.
2 -Confirmação dessa excelência: Pelo seu valor intrínseco - Pelas Ordens Religiosas -Pelas Academias e Escolas -Pelos Papas - Pelos Concílios Ecumênicos - Pelos não católicos.


IV PARTE: EXIGÊNCIA DE RESTAURAÇAO DA FILOSOFIA NOS TEMPOS ATUAIS (ns. 28-32).
1 - Conseqüências funestas do abandono da Escolástica.
2 - Louváveis iniciativas para a restauração da Filosofia Tomista.
3 - O Papa deseja esta restauração pelos motivos seguintes: Defesa da Igreja contra os ataques que lhe fazem as más filosofias-Restauração da ordem social-Promoção das ciências.


CONCLUSÃO (ns. 33-35)
1 - Exortação solene no sentido da restauração da doutrina tomista.
3 - Bênção Apostólica.




INTRODUÇÃO

1 - O Filho Unigênito do Pai Eterno, que apareceu no mundo para trazer ao gênero humano a salvação e a luz da sabedoria divina, concedeu certamente ao mundo um grande e admirável benefício, quando, antes de subir ao céu, mandou aos Apóstolos que fossem e ensinassem todas as nações; e deixou a Igreja estabelecida por Ele como mestre comum e supremo dos povos (Mat. 28, 19). Pois que os homens, libertados pela verdade, na verdade se deviam conservar; nem seriam muitos duradouros os frutos das doutrinas celeste pelos quais o homem alcançara a salvação, se Cristo Nosso Senhor não tivesse estabelecido um magistério perpétuo para instruir os entendimentos na fé.  A Igreja, porém, já confiando nas promessas do seu divino autor, já imitando-lhe a caridade, de tal sorte cumpriu essas ordens, que sempre teve em vista, sempre desejou ardentemente ensinar as coisas da religião e combater perpetuamente os erros. A este fim visam os trabalhos esmerados de cada um dos bispos; a este fim, as leis e decretos dos Concílios, e especialmente a solicitude cotidiana dos Pontífices Romanos, os quais, como sucessores no primado de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, têm o direito e o dever de ensinar e confirmar seus irmãos na fé.

2 - Acontecendo, porém, como diz o Apóstolo, que, pela "filosofia e pelos discursos sedutores" (Col. 2,8) as almas dos fiéis costumam ser enganadas, e a sinceridade da fé ser corrompida nos homens, por isso os supremos pastores da Igreja julgaram sempre ser dever seu promover, quanto pudessem, a verdadeira ciência, e ao mesmo tempo providenciar com suma vigilância, para que todas as disciplinas humanas, especialmente a filosofia, da qual em grande parte depende o bom uso das outras ciências, fossem ensinadas em toda a parte segundo a norma da fé católica. Isso mesmo, em outras coisas já vos lembramos de passagem, Veneráveis Irmãos, quando pela primeira vez vos falamos por Cartas Encíclicas.

3 - Agora, porém, em razão da gravidade do assunto e da condição dos tempos, somos obrigados a falar-vos de novo a fim de estabelecermos o método dos estudos filosóficos, que, correspondendo ao bem da fé, seja acomodado à mesma dignidade das ciências humanas.

4 - Se alguém atender à malícia dos nossos tempos e pensar na razão das coisas que acontecem pública ou particularmente, concluirá certamente que a causa fecunda dos males, não só daqueles que nos oprimem, mas também daqueles que receamos, consiste nas más opiniões à cerca das coisas divinas e humanas, que, partindo primeiro das escolas dos filósofos, têm invadido todas as ordens da sociedade, acolhidas pelos aplausos de muitos. Porquanto, sendo próprio da natureza humana seguir, na prática, como guia a razão, se a inteligência peca em qualquer coisa, a vontade também cai facilmente. Acontece, então, que a malícia das opiniões, que têm sede na inteligência, influi nas ações humanas e as perverte. Pelo contrário, se for reto o pensar dos homens, e baseado em sólidos e verdadeiros princípios, nesse caso há de produzir muitos benefícios para felicidade social e individual.

5 - Certamente que não atribuímos à filosofia humana tão grande força e autoridade, que a julguemos capaz de expulsar e arrancar totalmente todos os erros: porque, assim como quando se estabeleceu a religião cristã, pela admirável da fé difundida "não por palavras persuasivas da sabedoria humana, mas pela demonstração de espírito e virtude" (Cor. 2,4), o mundo foi restituído à primitiva dignidade; assim agora se deve esperar, principalmente da onipotente virtude e auxílio de Deus que as almas dos homens, dissipadas as trevas dos erros, sigam melhor vida. Não se devem desprezar nem desconsiderar, porém, os auxílios naturais, que por benefício da sabedoria divina, que tudo dispõe forte e suavemente, superabundam ao gênero humano: e entre esses auxílios é certo que o principal é o reto uso da filosofia. Pois que não foi em vão que Deus concedeu à alma humana a luz da razão. A luz da fé que depois lhe foi acrescida, longe de extinguir ou diminuir a força da inteligência, antes a aperfeiçoa e, aumentando-lhe as forças, a habilita para maiores coisas.
Pede, pois, a economia da mesma Providência Divina que, tratando-se de chamar os povos à fé e à Salvação, se aproveite à cooperação da ciência humana. Porque esse modo de proceder provado e sábio, fora seguido pelos preclaríssimos Padres da Igreja, está confirmando pelos monumentos da antiguidade. Eles, em verdade, atribuíram sempre à razão muita e não pequena importância, a qual resumiu suscintamente Santo Agostinho, atribuindo a esta ciência "aquilo por meio do que a fé salubérrima... é produzida, nutrida, defendida e robustecida” (De Trin. lib. XIV,l).

PRIMEIRA PARTE

RELACIONAMENTO ENTRE RAZAO E FÉ

6 - Em primeiro lugar, a filosofia sendo bem compreendida, pode em certo modo aplainar e fortificar o caminho para a verdadeira fé, e preparar convenientemente a inteligência dos seus discípulos para receberem a Revelação, visto que com razão é chamada pelos antigos umas vezes "instituição prévia para a religião cristã" (Clem. Alex., Strom. lib. I, 16), outras vezes "prelúdio e auxilio do cristianismo" (Orig. ad Greg. Thaum.), e também é chamada "pedagogo para o Evangelho" (Clem. Alex., Strom. I, 5). Realmente Deus benigníssimo, no que diz respeito às coisas divinas, não só revelou com luz da fé aquelas verdades que a inteligência humana não pode atingir, mas também manifestou algumas que não são absolutamente inacessíveis à razão, para que, com a autoridade de Deus, logo fossem compreendidas por todos sem receio de errar. Donde resulta que os mesmos sábios pagãos, só com a luz da razão, conheceram, demonstraram e defenderam com apropriados argumentos certas verdades, que nos são propostas pela fé ou estão estritamente unidas com a doutrina da fé. "Pois as coisas d'Ele, que são invisíveis, se vêem depois da criação do mundo, considerando-as pelas obras que foram feitas, ainda a Sua virtude sempiterna e a Sua divindade" (Rom. 1,20); e os gentios que não "têm lei ... mostram, todavia, a obra da lei escrita em seus corações" (Rom. 2,15). É muito conveniente que essas verdades, conhecidas mesmo pelos sábios pagãos, sejam convertidas em proveito e utilidade da doutrina revelada, a fim de se demonstrar que a sabedoria humana e os próprios testemunhos dos adversários prestam a homenagem à fé cristã.

7 - É coisa sabida que este modo de proceder não é novo, mas antigo, e muito usado pelos Santos Padres da Igreja. Além disso, essas veneráveis testemunhas e guardas das tradições religiosas reconhecem certa forma e, uma espécie de figura desse procedimento no fato dos hebreus, que, tendo de sair do Egito, receberam a ordem de levar consigo os vasos de prata e ouro, bem como os vestidos preciosos dos egípcios, para que essas coisas fossem dedicadas à verdadeira divindade, apesar de terem antes servido a ritos vergonhosos e cheios de superstição. Gregório de Neocessaréia (Orat. paneg. ad Origen.) louva Orígenes, por isso que, tendo este extraído com engenhosa habilidade muitas verdades dos pagãos, considerando-as como armas arrebatadas aos inimigos, serviu-se delas. Com singular engenho para defesa da sabedoria cristã e para refutação da superstição. Igualmente Gregório Nazianzeno (Vit. Moys). E Gregório Nisseno louva e aprovam o mesmo costume de disputar de Basílio Magno (Carm. I, Iamb. 3); porém São Jerônimo encarecidamente o recomenda em Quadrato, discípulo dos Apóstolos, em Aristides, em Justino, em Irineu, e em muitíssimos outros. (Epist. ad Magn.). E Agostinho diz: "Não vemos nós com quanto ouro e prata luxuosamente vestido, saiu do Egito Cipriano, doutor suavíssimo e felicíssimo mártir? E como saiu Lactâncio? E Vitorino, Optato e Hilário? E para não enumerar os vivos, como saíram inumeráveis gregos?" (De doctr. christ. I, II. 40).
Ora, se a razão natural produziu essa abundante colheita de doutrina, antes de ser fecundada pela virtude de Cristo, com certeza mais abundante colheita produzirá depois que a graça do Salvador restabeleceu e aumentou as faculdades naturais da alma humana. E quem não verá como por esse modo de filosofar se abre para a fé um caminho plano e fácil?

SUBÍDIOS DA FILOSOFIA PARA A FÉ

8 - Porém, não é nesses limites que se circunscreve a utilidade que provém desse modo de filosofar. Realmente, nas palavras da divina sabedoria se repreende asperamente a loucura desses homens que "por aquelas coisas que se viam serem bens, não puderam compreender Aquele que é; e que, não atendendo às obras, desconheceram quem era o artífice" (Sab. 13, 1).

9 - Portanto o grande e excelente fruto que em primeiro lugar colhemos da razão humana, é demonstrar que Deus existe: "porque pela grandeza da imagem e da criatura pode chegar-se sem dúvida ao Criador delas" (Sab. 5, 5). Depois mostra-nos que em Deus se reúnem singularmente todas as perfeições, sobressaindo sua infinita sabedoria, à qual nada pode, ocultar-se, e sua suprema justiça, que de nenhum mal afeto pode ser eivada, e que por isso Deus não só é verdadeiro, mas é a própria verdade que não pode enganar-se, nem enganar-nos. Donde evidentemente se deduz, que a razão humana presta à palavra de Deus pleníssima fé e autoridade.

10 - Semelhantemente a razão declara que a doutrina evangélica, logo desde a sua origem resplandecera com admiráveis milagres, como argumentos certos da verdade certa, e que por isso, todos aqueles que acreditam no Evangelho não acreditam temerariamente, como quem segue engenhosas fábulas (2 Ped. 1, 16); mas sujeitam sua inteligência e juízo à autoridade divina por uma submissão inteiramente racional. O que, porém, não é de imenso valor, é que a razão prova claramente que a Igreja instituída por Cristo (como definiu o Concílio Vaticano) "por causa da sua admirável propagação, exímia santidade e, inexaurível fecundidade em toda a parte, por causa da unidade católica e firmeza invencível, é um grande e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho irrefragável da sua divina missão" (Const. Dog. de Fid Cath. 3) .

11 - Lançados destarte, os firmíssimos alicerces, ainda se requer um continuado e múltiplo uso da filosofia para que a sagrada teologia admita e receba a natureza, hábito e engenho da verdadeira ciência. Porque nessa nobilíssima disciplina é grandemente necessário que muitas e diversas partes das doutrinas celestes se reúnam em um corpo, a fim de que, convenientemente dispostas, cada qual em seu lugar, e derivadas de princípios próprios, permaneçam estritamente unidas entre si; e, enfim, que todas e cada uma delas sejam confirmadas com argumentos próprios e irrefutáveis.

12 - Não devemos também passar em silêncio, nem ter em pouco aquele conhecimento mais esmerado e mais fecundo das coisas que se creem, bem como a inteligência, mais calara que ser possa, dos mesmos mistérios da fé, tão louvada e seguida por Agostinho e outros Padres, e que o mesmo Concílio Vaticano definiu que era frutuosíssima. Este conhecimento e inteligência é, sem dúvida, mais plena e facilmente adquirido por aqueles que, à integridade da vida e ao estudo da fé, acrescentam um engenho exercitado nas disciplinas filosóficas, principalmente ensinando o mesmo Concílio Vaticano que a inteligência dos sagrados dogmas convém ser deduzida "ora da analogia das coisas que se conhecem naturalmente, ora da conexão dos mesmos mistérios entre si e com o fim último do homem" (Const. Dogm. de Fid. Cath. 20).

13 - Finalmente, pertence também à filosofia defender religiosamente as verdades divinamente reveladas e resistir aos que ousam opor-se-lhes. Para isto, de muito serve a filosofia, que é considerada como o baluarte da fé e firme defesa da religião. “A doutrina do Salvador, diz Clemente de Alexandria, é perfeita em si e não carece de ninguém, porque é virtude e sabedoria de Deus. A filosofia humana não faz mais poderosa a verdade; mas, enfraquecendo os argumentos dos sofistas contra ela e pulverizando os maliciosos estratagemas contra a verdade, com razão é chamada sebe e estacada da vinha " (Strom. lib. 1, 20). Na verdade, assim como os inimigos do nome católico, para combater a religião, se servem de armas quase, sempre ex- traídas da razão filosófica, assim os defensores da divina ciência tiram do depósito da filosofia muitos argumentos para defenderem os dogmas da Revelação. Nem se pense que é mesquinho triunfo da fé cristã, por isso que a razão humana rebate vigorosa e facilmente as armas dos adversários, adquiridas com o auxílio da mesma razão, com o fim de fazer mal. São Jerônimo, escrevendo a Magno, diz que essa espécie de combate religioso fora adotado pelo mesmo Apóstolo das Gentes: "Paulo, guia do exército cristão, e, invencível orador, combatendo por cristo, aproveita com muita arte, para argumento da fé, uma inscrição casual; porque aprendera do verdadeiro Davi a arrancar as armas ao inimigo, e a decepar a cabeça do soberbíssimo Golias, com sua própria espada” (Epist. ad Magn.). Além disso, a mesma Igreja exorta e manda que os doutores cristãos se aproveitem desse auxílio da filosofia. O Concílio Lateranense V, tendo definido "que, toda a aversão contrária à fé revelada é absolutamente falsa, porque a verdade não pode estar em contradição com a verdade" (Bulla Apostolici Regiminis), manda os doutores da filosofia que tratem com empenho de refutar os argumentos falsos; pois que, como afirma Santo Agostinho "se a razão se opõe à autoridade das Escrituras Divinas, por muito especiosa que seja, engana-se com a semelhança da verdade, porque não pode ser verdadeira” (Epist. 143, 7).

SUBSÍDIOS DA FÉ PARA A FILOSOFIA

14 - Para que a filosofia, porém, produza os preciosos frutos que temos lembrado, é indispensável que jamais se afaste da senda, seguida pelos antigos Padres, e aprovada pelo Concílio Vaticano com solene autoridade. E assim, quando claramente conhecemos que, por motivos sobrenaturais, devemos receber quaisquer verdades, que são muito superiores à capacidade de qualquer engenho, a razão humana, conhecendo sua fraqueza, não ouse passar avante, nem negar essas verdades, nem compreendê-las, nem interpretá-las livremente; mas aceitando-as com absoluta e humilde fé, e considerando como grande honra ser lhe permitido seguir, à maneira de serva e criada, as doutrinas celestes, e por benefício de Deus atingi-las de algum modo.

15 - Naquelas doutrinas, porém, que a inteligência humana pode compreender naturalmente, é sem dúvida justo que, a filosofia empregue o seu método, seus princípios e argumentos. Não, porém, de modo que pareça ter a audácia de subtrair-se à autoridade divina. Pelo contrário, como é sabido que as coisas que a Revelação ensina se baseiam em verdades inconcussas, e que aquela que se opõe à fé repugnam igualmente com a reta razão, saiba o filósofo católico que violará os diretos da fé, não menos que os da razão, se adotar conclusões que conhece estarem em contradição com a doutrina revelada.

16 - Bem sabemos que não faltam homens que, exaltando demasiadamente as faculdades da natureza humana, asseveram que a nossa inteligência, logo que se sujeita à autoridade divina, desce da dignidade natural, e como que curvada debaixo do jugo da escravidão é de tal sorte sopeada e impedida, que não pode atingir o ápice da verdade e da perfeição. Essas palavras, porém, estão repletas de erro de dolo, e o fim a que visam é que os homens, com suma loucura e não sem crime de ingratidão, desprezem as verdades mais elevadas e respeitem espontaneamente o divino benefício da fé, da qual têm emanado ainda, sobre a sociedade civil, torrentes de todos os bens. Porque, estando o espírito humano encerrado dentro de certos e muito apertados limites, está sujeito a muitos erros e à ignorância de muitas coisas, pelo contrário, baseada na autoridade de Deus, a fé cristã é mestra seguríssima da verdade. Quem a segue, nem é envolvido pelo erro, nem agitado nas vagas de opiniões incertas.

17 - Por isso, os que harmonizam o estudo da filosofia com a obediência à fé cristã, raciocinam otimamente, até porque o esplendor das verdades divinas, recebido na alma, ajuda a mesma inteligência, e bem longe de a ofender em sua dignidade, lhe dá muita nobreza, penetração e firmeza. Quando, porém, aplicam a penetração do espírito a refutar a sentenças que repugnam à fé e a provar as coisas que com a fé se conformam, exercitam muito digna e utilmente a razão. Porque, nas primeiras, descobrem as causas do erro, e conhecem o defeito dos argumentos em que as mesmas se fundam. Nestas, porém, gozam da consideração das razões com que solidamente são demonstradas e podem ser persuadidas a qualquer homem prudente. Quem negar que com esse processo e exercício se aumentam as riquezas do entendimento, e se desenvolvem as suas faculdades, há de necessariamente cair no absurdo de afirmar que a distinção do verdadeiro e do falso não conduz de forma alguma ao adiantamento do engenho. Com razão, portanto o Concílio Vaticano lembra os grandes benefícios que a fé presta à razão nas seguintes palavras: “A fé livra e defende dos erros a razão, e a instrui com muitos ensinamentos" (Const. Dogm. de Fid. Cathol. 4). E por isso o homem, se fosse verdadeiramente sábio, não deveria culpar a fé como inimiga da razão e das verdades naturais, mas antes deveria dar graças a Deus e alegrar-se grandemente, porque, entre tantas causas da ignorância e no meio das vagas do erro, lhe apareceu rutilante, a santíssima luz da fé, a qual, como astro amigo, lhe mostra o porto da verdade, sem perigo algum de errar.

SEGUNDA PARTE

HARMONIA ENTRE RAZÃO E FÉ CONSIDERADA NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

18 - Se atenderdes, Veneráveis Irmãos, à história da filosofia, sabereis que na realidade se provam todas as coisas que até aqui temos dito. Na verdade, ainda os mais sábios dos antigos filósofos, que careceram do benefício da fé, erraram muitíssimo e em muitas coisas. Porque, não ignorais que, entre algumas verdades, ensinaram muitas vezes coisas falsas e errôneas, muitas coisas incertas e duvidosas acerca da verdadeira noção da divindade, da primitiva origem das coisas, do governo do mundo, do conhecimento divino do futuro, da causa e princípio dos males, do último fim do homem, da eterna bem-aventurança, das virtudes e vícios: de outras doutrinas, cujo conhecimento verdadeiro exato é mais que tudo necessário ao gênero humano. Porém os primeiros Padres e Doutores da Igreja, que muito bem sabiam, pelo conselho da vontade divina, que o reparador da própria ciência humana era Cristo, que é "virtude e sabedoria de Deus" (I Cor. 1, 24), e "no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedora e da cicia" (Col. 2, 3) empreenderam investigar os livros dos sábios antigos e confrontar as suas opiniões com as doutrinas reveladas; e por uma prudente escolha adotaram o que nelas parecia conforme com a verdade, emendando ou desprezando tudo o mais. Porque Deus providentíssimo, assim como suscitou para a defesa da Igreja, e contra a crueldade dos tiranos, mártires fortíssimos e cheios de magnanimidade, assim também opôs aos falsos filósofos e aos hereges homens extraordinários em sabedoria, que se valeram do tesouro da verdade, bem como do auxílio da razão humana. Assim, desde os princípios da Igreja os opôs contra ferrenhos adversários, que zombando dos dogmas e costumes dos cristãos, estabeleciam que havia muitos deuses, que a matéria do mundo não tinha um princípio nem causa, que a ordem das coisas estava numa força cega e numa necessidade fatal, e que não era dirigida pela divina providência. Ora, logo a princípio pelejaram, contra tais mestres dessa louca doutrina, homens sábios, a quem damos o nome de Apologistas que, guiando-se primeiro que tudo pela fé, também tomaram da sabedoria humana argumentos pelos quais assentaram que se devia prestar culto a um só Deus revestido de todas as perfeições; que todas as coisas foram produzidas do nada por um poder onipotente, que obram pela sua sabedoria, e que cada uma delas é dirigida e movida para seus fins próprios.
Merece, entre esses, o primeiro lugar, São Justino, mártir, que depois de ter freqüentado as celebérrimas Academias dos gregos, viu que só das doutrinas reveladas é que pôde extrair a verdade, como ele mesmo confessa, e abraçando-as com todo o ardor da sua alma, as purificou das calúnias, defendeu-as veementemente e, eloquentemente diante dos Imperadores Romanos, e com elas harmonizou grande número de opiniões dos filósofos gregos. Também Quadrato e Aristides, Hermias e Atenágoras eminentemente brilharam por esse tempo. Também não menor glória adquiriu para si, na defesa da mesma causa, Irineu, mártir invicto, Pontífice, da Igreja Lugdemense: o qual tendo valorosamente refutado as perversas opiniões dos orientais, espalhadas pelos gnósticos pelos limites do império romano, "explicou as origens de cada uma das heresias (como afirma Jerônimo), e de que fontes filosóficas emanavam" (Epist. ad Magn.). Ninguém, porém, ignora as disputas de Clemente Alexandrino, as quais o próprio Jerônimo honrosamente celebra assim: "Que há nelas de ignorância? E mesmo que há aí que não provenha do seio mesmo da filosofia?" (Loc. cit.). O mesmo com uma variedade pasmosa escreveu muitas coisas utilíssimas para estabelecer a história da filosofia, para exercitar convenientemente a dialética, para conciliar a harmonia da razão com a fé. Segue-se-lhe Orígenes, insígne mestre da escola de Alexandria, muito instruído nas doutrinas gregas e orientais, que publicou muitos e magníficos volumes, utilíssimos para explanar as divinas Escrituras e esclarecer os dogmas sagrados. Ainda que esses livros, tais quais agora existem, não estão totalmente isentos de erros, contêm, todavia, grande cópia de sentenças que multiplicam e robustecem as verdades naturais. Aos hereges opõe Tertuliano a autoridade das Sagradas Escrituras; aos filósofos, mudando de armas, opõe-lhes a filosofia. A estes refuta, com tanta sutileza e erudição, que não teme lançar-lhe em rosto este repto: "Não me podeis igualar em ciência nem em doutrina como julgais" (Apologet. § 46). Arnóbio, em seus livros publicados contra os gentios, e Lactâncio, principalmente em suas Instituições divinas, empregam igual eloquência e valor para persuadir aos homens os dogmas e preceitos da sabedoria católica; e longe de transtornar a filosofia, como costumam fazer os Acadêmicos, servem-se, para os convencer: (Inst. VII, 7) ora das suas armas, ora as que se deduzem das questões intestinas dos filófofos (De Opif. Dei, 21).

19 - Os escritos que, acerca da alma humana, dos atributos divinos e de outras questões de gravíssima consideração, deixaram o grande Atanásio e Crisóstomo, príncipe dos oradores, são tão excelentes que, na opinião comum, parece que nada se pode acrescentar à sua profundidade e abundância. E para não alongar demais esta lista de grandes talentos, ajuntaremos aos que temos mencionado Basílio Magno, bem como os dois Gregórios, os quais saíram de Atenas, domicílio de toda a humanidade, abundantemente instruídos em todos os recursos da filosofia; e estes tesouros de ciência que cada um deles adquiria, ardentemente os empregaram em refutar os hereges e em ensinar os cristãos.
Parece, porém, que a primazia pertence, entre todos a Santo Agostinho, poderoso gênio, que penetrou profundamente em todas as ciências divinas e humanas, armado de uma fé suma e igual doutrina, combatendo sem descanso todos os erros de seu tempo. Que ponto da filosofia não tocou e não aprofundou? Descrevendo aos fiéis os mais altos mistérios da fé, prevenindo-os sempre contra os agressivos ataques de seus adversários; pulverizando as ficções dos acadêmicos e dos Maniqueus, assentou e consolidou os fundamentos da ciência humana. Com que riqueza e penetração tratou dos anjos, da alma, da inteligência humana, a vontade e livre arbítrio, da religião, da vida futura, do tempo, da eternidade e até da mesma natureza dos corpos sujeitos a mudanças! Mais tarde, no Oriente, João Damasceno, seguindo os passos de Gregório Nazianzeno, e no Ocidente, Boécio e Anselmo, seguindo os de Agostinho, enriqueceram grandemente o patrimônio da filosofia.

20 - Finalmente, os Doutores da Idade Média, conhecidos pelo nome de Escolásticos, empreendem a obra colossal de recolher com cuidado aqui e ali a abundante messe da doutrina disseminada nas inumeráveis obras dos Santos Padres reduzindo-as a uma só obra, para uso e comodidade das gerações futuras. E agora, Veneráveis Irmãos, podemos repetir as palavras com que Sixto V, Nosso Predecessor, explica com extensão a origem, o caráter e a excelência da doutrina escolástica: "Pela divina munificência d'Aquele que é o único a dar o espírito de ciência, de sabedoria e, de, inteligência, e que no decurso dos séculos, e segundo as necessidades, não cessa de enriquecer a sua Igreja com novos benefícios, de provê-la de novas e seguras defesa, nossos antecessores, homens de profunda ciência, inventaram a teologia escolástica. Principalmente, porém, dois gloriosos doutores, o Angélico São Tomás e o Seráfico São Boaventura, ambos professores ilustres nesta faculdade, são os que, com seu incomparável talento, com seu assíduo zelo, com seus trabalhos e vigílias, cultivaram esta ciência, enriquecendo-a e transmitindo-a a seus descendentes, disposta em uma ordem perfeita e explicada de muitos modos. E certamente o conhecimento de uma ciência tão saudável que dimana do fecundíssimo manancial das Escrituras, dos Sumos Pontífices, dos Santos: Padres e dos Concílios, tem sido em todos os tempos de grande, vantagem para a Igreja, já para a boa inteligência e verdadeira interpretação das Escrituras, já para ler e explicar os Padres com mais segurança e utilidade, já para desmascarar os variados erros e as heresias. Nesses últimos tempos, porém, que nos têm trazido os dias profetizados pelo Apóstolo, em que os homens blasfemos, orgulhosos, sedutores, fazem progresso no mal, errando eles e induzindo os outros ao erro, certamente que, para confirmar os dogmas da fé católica e refutar as heresias, é mais que nunca necessária a ciência de que tratamos" (Bulla Triumphantis, 1588) .
Essas palavras, ainda que parece que atingem somente a teologia escolástica, estendem-se, todavia, à própria filosofia. Com efeito, as eminentes qualidades que tornam a teologia escolástica tão temível aos inimigos da verdade, a saber, continua o mesmo Pontífice: " Aquela coerência tão estreita e perfeita dos efeitos e das causas, aquela ordem e simetria semelhante às de um exército em campanha, aquelas luminosas definições e distinções, aquela solidez de argumentação e sutileza de controvérsia, coisas todas por meio das quais se separa a luz das trevas, se distingue o verdadeiro do falso e as mentiras da heresia, despojadas do prestígio e das ficções que as rodeiam, aparecem a descoberto"; todas essas brilhantes qualidades, dizemos, se devem unicamente ao bom uso da filosofia que os doutores escolásticos adotaram, geralmente ainda nas controvérsias teológicas.
Além disso, como o caráter próprio e distintivo dos teólogos escolásticos é unir com o mais estreito laço a ciência divina e humana, a teologia em que se distinguiram não poderia certamente ter adquirido tanta honra e estima na opinião dos homens, se esses doutores tivessem pregado uma filosofia incompleta, truncada e superficial.

TERCEIRA PARTE

SÃO TOMÁS DE AQUINO CONCILIOU COM MÁXIMA PERFEIÇÃO RAZÃO E FÉ

21 - Porém, entre todos os doutores escolásticos, brilha, como astro fulgurante, e como príncipe e mestre de todos, Tomás de Aquino, o qual, como observa o Cardeal Caetano, "por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam, herdou, de certo modo, a inteligência de todos" (S. T. II II, 148, 4). Tomás coligiu suas doutrinas, como membros dispersos de um mesmo corpo; reuniu-as, classificou-as com admirável ordem, e de tal modo as enriqueceu, que tem sido considerado, com muita razão, como o próprio defensor e a honra da Igreja. De espírito dócil e penetrante, de fácil e segura memória, de perfeita pureza de costumes, levado unicamente pelo amor da verdade, prenhe de ciência divina e humana, justamente comparado com o sol, aqueceu a terra com a irradiação de suas virtudes e encheu-a com o resplendor de sua doutrina. Não há um ponto da filosofia que não tratasse com tanta penetração como solidez. As leis do raciocínio, Deus e as substâncias incorpóreas, o homem e as outras criaturas sensíveis, os atos humanos e seus princípios, são objeto das teses que defende, nas quais nada falta, nem a abundante colheita de investigações, nem a harmoniosa coordenação das partes, nem o excelente método de proceder, nem a solidez dos princípios, nem a força dos argumentos, nem a lucidez de estilo, nem a propriedade da expressão, nem a profundidade e gentileza com que resolve pontos mais obscuros.

22 - Ainda mais: o Doutor Angélico buscou as conclusões filosóficas nas razões e princípios das coisas, que têm grandíssima extensão e encerram em seu seio o germe de quase infinitas verdades, para serem desenvolvidas em tempo oportuno e com abundantíssimo fruto pelos mestres dos tempos posteriores. Empregando o mesmo procedimento na refutação dos erros, o santo Doutor chegou ao seguinte resultado: debelou todos os erros do tempo passado, e propiciou invencíveis armas para os que haviam de aparecer nos tempos futuros. Além disso, ao mesmo tempo que distingue perfeitamente, como convém à fé e à razão, uni-as ambas pelos vínculos de mútua concórdia, conservando a cada uma seus direitos e salvando sua dignidade. Assim é que a razão, levada por Tomás até o píncaro humano, não pode elevar-se a maior altura. E a fé quase não pode esperar que a razão lhe preste mais numerosos e mais valentes argumentos do que aqueles que lhe forneceu Tomás de Aquino.

23 - Por isso, nos séculos passados, homens doutíssimos, de grande renome em teologia e filosofia, procurando com incrível empenho as obras de Tomás, se têm consagrado, não só a cultivar sua angélica sabedoria, mas também a imbuir-se inteiramente dela. É sabido que quase todos os fundadores e legisladores das Ordens Religiosas têm imposto a seus companheiros o estudo da doutrina de São Tomás e a cingirem-se a ela religiosamente, dispondo que a nenhum dele!s seja lícito separar-se impunimente, ainda em coisas pequenas, das pegadas deste grande homem. Para não falarmos da família de São Domingos, que se gloria do direito próprio de o ter por mestre, os Beneditinos, os Carmelitas, os Agostinianos, a Companhia de Jesus e muitas outras Ordens estão obrigadas a esta lei, como atestam os respectivos estatutos.

24 - E aqui se levanta jubilosamente o espírito a essas celebérrimas Academias e Escolas, que outrora floresceram na Europa, - de Paris, de Salamanca, de Alcalá, de Douai, de Toloa, e Louvaina, de Pádua de Bolonha, de Nápoles, de Coimbra e outras muitas. Ninguém ignora que as consultas que se lhes faziam, nos mais importantes negócios, gozavam de grande autoridade em toda a parte. É também sabido que, naqueles grandes abrigos da sabedoria humana, Tomás reinava como um príncipe em seu próprio império, que todas as inteligências, as dos mestres e as dos discípulos, se curvavam com admirável consonância ao magistério e autoridade do Doutor Angélico.

25 - Mas, o que é mais, os Pontífices Romanos, Nossos Predecessores, têm honrado a sabedoria de Tomás de Aquino com singulares louvores e amplíssimas provas. Clemente VI, Nicolau V, Bento XIII e outros, atestam que a Igreja Universal é ilustrada pela sua admirável doutrina. São Pio V reconhece que a mesma doutrina, dissipando as heresias, as confunde e refuta, e que todos os dias livra o mundo de erros maléficos. Outros, como Clemente XII, afirmam que de seus escritos têm nascido abundantíssimos bens para a Igreja universal, e que devem ser honrados com o mesmo culto que é prestado aos maiores doutores da Igreja - Gregório, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo. Outros, finalmente, não têm duvidado propor São Tomás às Academias e Escolas Superiores como modelo e mestre a quem podiam seguir com segurança. E a tal respeito merecem recordar-se aqui as palavras de São Urbano V à Academia de Tolosa: "Queremos, pelo teor das presentes, mandamos, que se sigais as doutrinas de São Tomás como verídicas e católicas e, que envideis todos os esforços para desenvolvê-las" (Cons. 5, 3.08.1368). Seguindo o exemplo de Urbano V, Inocêncio XII impõe as mesmas prescrições à Universidade de Lovaina, e Bento XIV, ao Colégio Dionisiano de Granada. A fim de pôr termo a essas decisões dos Sumos Pontífices acerca de S. Tomás de Aquino, acrescentaremos o seguinte testemunho de Inocêncio VI: "A doutrina de São Tomás tem sobre as outras, excetuando a canônica, a propriedade dos termos, o modo de expressão, a verdade das proposições, de sorte que os que a seguem nunca se vêem surpreendidos fora do caminho da verdade, e quem a combate tem sido sempre suspeito de erro" (Sermão de S. Tomás).

26 - Os próprios Concílios Ecumênicos, em que brilha a flor da sabedoria colhida em toda a terra, se têm ocupado sempre em prestar a Tomás de Aquino especial homenagem. Nos Concílios de Lião, de Viena, de Florença, do Vaticano, acreditar-se-ia ver Tomás tomar parte, presidir de certo modo às deliberações e decretos dos Padres Conciliares, e combater com grande vigor e com mais feliz êxito os erros dos gregos, dos hereges e dos racionalistas.
A maior honra, porém, prestada a São Tomás, só a ele reservada e que nenhum dos doutores católicos pode partilhar, provém dos Padres do Concilio Tridentino, quando fizeram que, no meio da santa assembléia, com o livros das Escrituras e com os decretos dos Papas, fosse colocada aberta sobre o mesmo altar a Suma Teológica de Tomás de Aquino para dela extrair conselhos, razões e decisões.

27 - Finalmente, outra palma parece ter sido reservada a este homem incomparável: ter sabido granjear dos mesmos inimigos do dogma católico o tributo de suas homenagens, de seus elogios e de sua admiração. Com efeito, é sabido que entre os principais promotores de heresias houve alguns que declararam, em alta voz, que suprimida a doutrina de São Tomás de Aquino se comprometiam a empreender uma luta vantajosa contra todos os doutores católicos e aniquilar a Igreja. Infundada esperança, mas não infundado testemunho.

QUARTA PARTE

RESTAURAÇAO DA VERDADEIRA FILOSOFIA

28 - Sendo assim, Veneráveis Irmãos, todas as vezes que olhamos para a bondade, força e inegável utilidade dessa disciplina filosófica, tão amada de nossos pais, intendemos que tem sido uma temeridade o não haver continuado em todos os e lugares a honra que merece, principalmente tendo a filosofia escolástica em seu favor o largo uso, a opinião dos homens eminentes e, o que é o principal, a aprovação da Igreja.

Em lugar da doutrina antiga, uma espécie de novo método de filosofia se tem introduzido aqui e ali sem dar os saudáveis frutos que a Igreja e a sociedade civil desejam. Debaixo dos impulsos dos inovadores do século XVI, principiou-se a filosofar sem respeito algum pela fé, com plena licença para deixar voar o pensamento segundo o capricho e critério de cada um. Resultou naturalmente que os sistemas de filosofia se multiplicam de modo extraordinário, e que apareceram opiniões diversas e contraditórias até sobre os objetos mais importantes dos conhecimentos humano. Com a pluralidade de opiniões, chega-se facilmente à vacilação e à duvida; da dúvida, porém, ao erro é facílimo ao conhecimento humano o chegar, como todos sabem.  Os homens deixaram-se facilmente arrastar pelo exemplo, e a paixão da novidade invadiu, segundo parece, em alguns países, até o espírito dos filósofos católicos, os quais, desprezando o patrimônio da antiga sabedoria, preferiram edificar de novo a aperfeiçoar e acrescentar o antigo edifício, projeto esse pouco prudente e que causa grandes males à ciência. Portanto, estes variados sistemas, fundados unicamente na sua autoridade e no arbítrio de cada mestre particular, carecem de base sólida, e por conseguinte, em lugar dessa ciência segura, estável e robusta como a antiga, só podem produzir uma filosofia vacilante e sem consistência. E se tal filosofia carece de força para resistir aos assaltos do inimigo, a si mesma deve imputar as causas da sua fraqueza.
Ao dizer isso, não intendemos certamente censurar esses sábios avisados, que empregam na cultura filosófica o seu gênio, sua ambição e a riqueza de novas invenções, e compreendemos muito bem que todos esses elementos concorrem para o progresso da ciência. Devemos, porém, evitar com o maior cuidado desse engenho e dessa erudição os únicos ou principais da sua aplicação. O mesmo se deve pensar da teologia sagrada. É bom que ela seja ajudada e ilustrada pela luz de uma variada erudição. É, porém, absolutamente necessário tratá-la com a seriedade dos escolásticos, a fim de que, com as forças reunidas da Revelação e da razão, não deixe de ser "o inexpugnável baluarte da fé" (Sixto V, Bulla cit.).

29 - É, pois, feliz aspiração a dos numerosos interessados pela filosofia, que, desejosos de empreender, nestes últimos anos eficazmente a sua restauração, se têm consagrado e, consagram ainda a utilizar a admirável doutrina de Tomás de Aquino e a devolver-lhe o antigo esplendor. Animados com o mesmo espírito vários membros de vossa ordem, Veneráveis Irmãos, têm entrado com ardor na mesma tarefa. É com alegria que o reconhecemos. Louvando-os com efusão, os exortamos a perseverar em tão grande empreendimento. Aos outros, advertimos que nada é mais conforme com o nosso coração e nada desejamos tanto senão vê-los oferecer ampla e copiosamente à juventude estudiosa as águas puríssimas da sabedoria que dimanam em torrentes contínuas do Doutor Angélico.

30 - Muitas razões provocam em Nós este ardente desejo. Primeiramente, como a fé cristã se vê diariamente, em nossos tempos, combatida pelas maquinações e sofismas de um falsa sabedoria, é necessário que todos os jovens, especialmente os que são educados para o serviço da Igreja, sejam nutridos com alimento forte dessa doutrina, para, fortes e munidos dessas armas, maduramente se acostumem a tratar com sabedoria e coragem a causa da religião, prontos sempre, como diz o Apóstolo, "a dar conta, a quem lha pedir, da esperança que existe em nós" (I Ped. , 5); assim como "a exortar em sã doutrina e convencer os que a contradizem " (Tito 1, 9). Além disso, grande número de homens que "afastando o espírito da fé, desprezam instituições católicas e professam que seu único mestre guia é a razão. Para os curar e trazer à graça e ao mesmo tempo à fé católica, além do auxílio sobrenatural de Deus, nada mais vemos mais oportuno do que as sólidas doutrinas dos Padres e dos Escolásticos, que põem à vista inabaláveis bases da fé, sua origem divina, sua verdade certa, seus motivos de persuasão, os benefícios que tem feito ao gênero humano, sua perfeita harmonia com a razão, e isto com tanta força e evidência, quanta é necessária afazer curvar os espíritos mais rebeldes e mais obstinados.

31 - Todos vemos em que tristíssima situação está a família e a sociedade por causa da peste das opiniões perversas. Por certo que ambas gozariam de paz mais perfeita e de maior segurança, se nas Academias e nas escolas se ensinassem doutrinas mais sãs e mais conformes com o ensino da Igreja, ensino como se acha nas obras de Tomás de Aquino. O que ele ensina acerca da verdadeira natureza da liberdade em todos os tempos e, que, em nossos, degenerou em licenciosidade, o que a respeito da origem divina de qualquer autoridade, das leis e da sua força, do império paternal e justo dos grandes princípios, da obediência aos poderes superiores, da mútua caridade entre todos, o que acerca dessas coisas e de outras do mesmo gênero é tratado por S. Tomás, tem a maior e mais invencível força para lançar por terra esses princípios de um novo direito que todos conhecem ser perigoso à paz, à ordem e ao bem estar social.

32 - Finalmente, todos os conhecimentos humanos devem esperar grande incremento e grande defesa vindos dessa restauração dos estudos filosóficos que nós temos proposto. Porque da filosofia, como sabedoria moderadora que é, costumam as belas artes tomar a sã razão e o reto método, e beber dela o seu espírito como de fonte comum da vida. De fato, e por uma constante experiência se comprova que as artes liberais têm florescido principalmente quando têm permanecido incólumes a desonra e o juízo da filosofia. Contrariamente, têm sido relegadas ao esquecimento e ao desprezo, quando a filosofia tem decaído e se tem envolvido em erros e vãs sutilezas.  As mesmas ciências físicas que agora são de tanto valor, e que causam singular admiração em toda aparte com tantas maravilhosas invenções, não só nenhum dano hão de sofrer causado pelo restabelecimento da filosofia antiga, mas antes receberão muito auxílio. Pois que para o frutuoso exercício e incremento delas não basta só a consideração dos fatos e a contemplação da natureza, senão que, verificados os fatos, deve subir-se mais alto e procurar com todo o cuidado reconhecer a natureza das coisas corpóreas, investigar as leis que a obedecem e os princípios donde provém a ordem das mesmas, sua unidade no meio da verdade, e sua afinidade no meio da diversidade. Para cujas investigações é admirável a força, luz e auxílio que presta a filosofia escolástica, se for ensinada com lúcida inteligência. A este respeito, apraz-nos consignar que só com grave injúria se pode atribuir à mesma filosofia o defeito de opor-se ao adiantamento e progresso das ciências naturais. Os escolásticos, com efeito, seguindo o parecer dos Santos Padres, tendo ensinado a cada povo, na antropologia, que a inteligência só por meio das coisas sensíveis pode elevar-se ao conhecimento de seres incorpóreos e imateriais, têm compreendido por si mesmos que nada mais útil para o filósofo do que investigar atentamente os segredos da natureza, e aplicar-se por largo tempo ao estudo das coisas físicas. Isso mesmo fizeram eles. São Tomás, o Bem Aventurado Santo Alberto Magno e outros promotores da Escolástica, não se entregaram à contemplação da filosofia sem que também não dessem grande atenção ao conhecimento das coisas naturais. Antes, nessa ordem de conhecimentos, muitas das suas afirmações e dos seus princípios são aprovados pelos mestres modernos que reconhecem a sua exatidão. Além disso, mesmo neste nosso tempo, muitos e insignes doutores das ciências físicas têm dado público testemunho de que entre as afirmações certas e verdadeiras da física moderna e os princípios filosóficos da Escola, não existe contradição.

CONCLUSÃO

33 - Nós, pois, proclamando que é preciso receber de boa vontade e com reconhecimento tudo o que for sabidamente dito, ou utilmente descoberto seja por quem for, vos exortamos, Veneráveis Irmãos, com muito empenho, a que, para defesa e, exaltação da fé católica, para o bem social e para a promoção de todas as ciências, ponhais em vigor e deis a maior extensão possível, à preciosa doutrina de São Tomás. Dizemos doutrina de São Tomás, porque se se encontrar nos Escolásticos, alguma questão demasiado sutil, alguma afirmação inconsiderada, ou alguma coisa que não esteja em harmonia com as doutrinas experimentadas nos séculos posteriores, ou que seja finalmente destituída de probabilidade, não intentamos de modo algum propô-la para ser repetida em nossa época. Quanto ao mais, diligenciem os mestres, cuidadosamente escolhidos por vós, fazer penetrar no espírito dos discípulos a doutrina de São Tomás; façam, sobretudo, notar claramente quanto esta é superior às outras em solidez e elevação. Que as Academias que tendes instituído ou houverdes de instituir para o futuro, expliquem esta doutrina a defendam e utilizem para refutação dos erros dominantes. Para evitar, porém, que se aceite como verdadeiro o que é apenas hipotético, e que se beba como água pura o que não é, providencial para que a "sabedoria e Tomás se colha em seus próprios mananciais ou ao menos nos arroios que, saindo do próprio manancial, correm todavia claros e límpidos conforme o testemunho dos doutores. Dos arroios que se dizem derivar do manancial, mas que estão na realidade cheios de águas estagnadas e insalubres, afastai, com muito cuidado, o espírito dos jovens.

34 - Sabemos, porém, que todos os nossos esforços serão inúteis, Veneráveis Irmãos, se a nossa empresa não for secundada por Aquele que nas Escrituras é chamado "Deus das ciências" (I Reis. 2, 3). Elas nos advertem também "que todo o bem excelente, todo o dom perfeito vem de cima, descendo do Pai das luzes" (Jacob 1, 17). E mais: "Se alguém carece de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e não o lança em rosto, e ser-lhe-á dada" (I. c. 5, 5). Nisto sigamos também os conselhos do Doutor Angélico que nunca se entregava ao estudo e ao trabalho sem que antes tivesse recorrido a Deus por meio da oração, e que ingenuamente confessava que, quanto sabia, o devia, não tanto a seu estudo e trabalho, como ao auxílio divino. Roguemos, pois, a Deus todos juntos com espírito humilde e coração unânime que derrame sobre os filhos da Igreja o espírito de ciência e inteligência, lhes abre o sentir para entenderem a sabedoria. Para obter, com maior abundância ainda, os frutos da bondade divina, interpondo para com Deus o onipotente auxílio da Bem Aventurada Virgem Maria, sede da sabedoria, recorrei ao mesmo tempo, à intercessão de São José, puríssimo esposo da Virgem, assim como os grandes Apóstolos São Pedro e São Paulo, que renovarão, com a verdade a terra infestada pelo contágio do erro, enchendo-a com o esplendor da luz celeste.

35 - Enfim, sustentado pela segurança do auxílio divino, confiando em vosso pastoral zelo, a todos damos, Veneráveis Irmãos, do íntimo do coração, assim como ao vosso clero e ao povo confiado a vosso cuidado, a Bênção Apostólica, como prova dos bens celestes e testemunho do Nosso particular afeto.


Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 4 de agosto de 1879, segundo ano do Nosso Pontificado. 

LEÃO XIII, PAPA


Fonte: www.aquinate.net

http://www.aquinate.net/portal/Tomismo/Tomistas/papa-leao-XIII-aeterni%20patris.php




















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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SOBRE A MARCA DA BESTA PELO PADRE LACUNZA


Tomado de Radio Cristandade

Tradução de Rodrigo Santana

Que nos sirva esta consideração do Padre Lacunza sobre a marca da besta, para que não tenhamos idéais díspares que nos impeçam de ver a realidade, e pior ainda; esperando com a fantasia da imaginação, que se produzam e realizem para começar a perceber, quando já tenha passado muita água debaixo da ponte.

Não há que se esquecer ademais, que devemos ter presente que a marca é produzida (a realiza ou imprime) pelo Anticristo religioso, que tem nome próprio: o Pseudo-Profeta, a segunda besta (ou melhor, pelo furor de seu poder religioso) que sai da terra, e não da primeira besta (ou fera pelo furor de seu poder político), o Anticristo político, que sai do mar e tem sete cabeças (que expressa uma coalizão política internacional mundial). Pelo qual, esta marca é em primeiro lugar de caráter religioso, e não de ordem ou caráter político, como muitos inadvertidamente creem e pensam.

Lamentavelmente, a atenção tem sido desviada imperceptivelmente, fixando-se mais na primeira besta que sai do mar, o Anticristo político (com toda a fantasia de um quase Napoleão hebraico), do que na segunda besta que sai do abismo do infernal da terra, com dois chifres semelhantes aos de um cordeiro (imitação de Cristo), com a imagem (fachada), o poder e a autoridade de Cristo, mas que fala como o Dragão (a língua bifurcada da serpente, mas com patas, pois é o dragão) que com sua longa, rastejante, sinuosa e sedutora cauda, é das duas bestas, a mais perigosa e mortífera para as almas. Como é hoje o Novo Catolicismo "democrático, humanitário, progressista", tal como o denomina o Padre Castellani (Os Documentos de Benjamin Benavides, ed. Dictio 1978, Bs.As. p, 256), o qual vem a ser como uma paródia da Santíssima Trindade com a sua trilogia da Liberdade, Progresso e Democracia, ou se quiserem, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pois o mundo moderno tem nisto o objeto de sua idolatria científico-técnica.

Roma, torna-se assim a cabeça da Nova Religião Modernista, convertendo-se na Roma apóstata, sede do Anticristo (religioso), como profetizou Nossa Senhora de La Salette. A Nova Igreja Pós-conciliar, desde sua capital Roma apóstata, arrasta os fiéis para a Apostasia Universal. Trata-se da Nova Religião democrática antropoteísta do Humanismo Integral.

"... parecerá sem dúvida visível e evidente a quaisquer que quiserem vê-lo, que o caráter, o nome ou identificação de que fala a profecia, não pode significar outra coisa, óbvia e naturalmente que uma profissão pública e descarada daquele ABRENUNTIO (renunciar ao), ou fazer profissão de renegado que parece o caráter, ou o espírito, ou o distintivo próprio de toda besta. Assim o tomar este caráter, não será outra coisa, que tomar o partido pela liberdade, um solvere Jesum, público e manifeto; uma apostasia formal da profissão de fé cristã professada anteriormente. Diz-se que este caráter o levará na face ou nas mãos, para denotar publicidade e descaro, com que se professará já então o cristianismo; pois a face e as mãos são as partes mais públicas do homem, e ao mesmo tempo são ainda dois símbolos propícios, o primeiro do modo de pensar, o segundo do modo de obrar. Desatados de Jesus, como desatados da verdade e sabedoria eterna, não há dúvida que ficarão a face e as mãos, isto é, pensamentos e operações, numa suma liberdade, mas liberdade não já de racionais, senão de brutos, (...)

Diz-se que não poderão comprar ou vender os que não levem este caráter, para denotar o estado lastimável de desprezo, de escárnio, de ódio, de abandono no qual ficarão os que quiserem conservar intacta sua fé; e também para denotar a terrível tentação e o sumo perigo que será para eles este desprezo, escárnio, ódio e abandono, vendo-se excomungados de toda linhagem humana. O próprio Jesus Cristo, nos assegura em particular que naqueles tempos de tribulação, mesmo os parentes e as pessoas da própria casa serão os maiores inimigos dos que quiserem ser fiéis à Deus (...)

Diz-se enfim, que a segunda besta com dois chifres, e não a primeira, será a causa imediata da grande tribulação (...). Do qual se inferem duas boas consequências. Primeira, que assim como a besta de dois chifres é toda metafórica, como é a primeira; assim o caráter desta, o ato de tomar este caráter e de levá-lo na testa e nas mãos, são expressões puramente metafóricas, que só podem ser verdadeiras per similitudinem, non per proprietatem. A segunda coisa que se infere, é que o tomar e levar publicamente este caráter, deve ser um ato livre e voluntário, não forçado. A razão é porque o poder desta besta não pode consistir em outra coisa do que nas suas armas: e essas armas que são de cordeiro, isto é, seus chifres, as de dragão, milagres, etc, não são a propósito para obrigar por força e violência, senão para mover e persuadir com suavidade. Em suma, o que nos é dito por todas essas semelhanças, não parece outra coisa senão que a segunda besta terá a maior parte e a máxima culpa na perdição dos cristãos. Ela será a causa imediata, com suas obras iníquas e suas palavras sedutoras, de que os cristãos entrem na moda e se acomodema ao gosto do século, rompendo aquela corda da Fé que os tinha atados com Jesus, e declarando-se pelo Anticristo."

(A Vinda do Messias na Glória e Majestade - La Venida del Mesías en Gloria y Majestad, Lacunza. Paris, 1825 p.254, 255, 256, 257.)

P. Basilio Méramo

Bogotá, Fevereiro 17 de 2012